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Maggie Cassidy, first edition

Pelo amor aos livros e aproveitando a leva de posts sobre Jack Kerouac, posto aqui as fotos da raridade que encontrei na Estante Virtual, a primeira edição de Maggie Cassidy, publicado em 1959.  Em vez do preço alto da AbeBooks, sem contar o frete caro e a alta cotação do dólar, paguei 14 reais nesta beleza.

Como mencionei no post anterior, a trama deste livro me chamou atenção por tratar dos anos iniciais da vida artística de Jack Kerouac, além de contar a história do primeiro amor de sua vida. Interessado pela Duluoz Legend, lá estava eu pesquisando sites de compras em busca de livros de Kerouac, quando resolvo conferir a lista virtual dos semi-novos, usados, velhos e sebosos livros do Brasil.  Aí vi que tinha este livro em um sebo de SP e a descrição dizia que o livro era capa mole e amarelado, mas era a primeira edição! Não ligo tanto pra essa coisa de primeira edição, ainda mais se for um absurdo de caro. Apesar de livros raros serem bonitos e valiosos, é hobby de nego rico. Mas como estava 14 reais a história foi outra. Quando eu vi um vendedor na AbeBooks cobrando este livro por US$ 249.66 (tem um autografado que está por quase 5 mil dólares), fechei a compra na Estante Virtual na hora.  Me senti ótimo, sortudo, como o Rafael Galvão comentou ao levar uma sorte semelhante: “Gosto de saber que esses livros valem muito mais do que paguei por eles. É bobo, eu sei, mas isso me dá uma sensação de esperteza que me falta em praticamente todas as outras áreas da vida cotidiana”. O mesmo aqui, Galvão.

O livro chegou direitinho, dentro de um saco plástico transparente. Ao ver o estado das páginas, jurei que elas iriam se desfazer e cair aos meus pés quando fosse abrir o livro. Com medo, dei uma olhada no livro e estava tudo no devido lugar. Só faltava o negócio estar corroído por vermes, esfarinhando e com páginas faltando. Apesar de mole, a capa está em perfeito estado e somente o miolo está bem velho. Fazer o quê, o livro é mais velho que minha mãe. Fiz umas pesquisas e descobri que para conservar livros antigos, recomenda-se fazer uma capa de plástico de acetato, como se fosse uma dust jacket. Comprei a tal folha de acetato e fiz a jacket para proteger o livro; podem conferir o resultado nas fotos abaixo.

Logo volto com a resenha de mais um capítulo da Duluoz Legend, desta vez, contando sobre os gozos de um jovem e os desafios de se tornar adulto.

maggie cassidy

Maggie Cassidy was no longer a girl. The vibrant, demanding, thrilling, woman body of her splashed over Jack’s life like soft spring rain, warming him, caoxing him, pushing him to life. It frightened him, for the day he met Maggie he saw the end of innocence, the last of childhood.

Big Sur e The Duluoz Legend

“Se você acha que Jack Kerouac encontrou a salvação na estrada, você não conhece Jack”. Esta é a frase que abre o documentário “One fast move or I’m gone: Kerouac’s Big Sur”, filme sobre o livro que comentarei aqui hoje. Big Sur, publicado em 1962, retrata uma atmosfera diferente daquela de On the road ou The dharma bums, mais alegre, vívida e cheia de esperança. Ao acordar bêbado em um quarto de hotel em São Francisco, Jack Duluoz (o alter-ego de Kerouac) tem um momento de lucidez e percebe sua condição precária, lamentosa, gosmenta e derrotada. Com uma ressaca desgraçada, ele vê o quarto bagunçado e lá está sua mochila no chão, ao lado de garrafas de vinho do porto branco, bitucas de cigarro e lixo. O plano de Jack era passar um bom tempo na cabana de seu amigo Lawrence Ferlinghetti no Big Sur, sem fazer nada de especial, somente querendo fugir da vida de fama e de perturbações por causa de seu On the road.

big sur
Assim, o que movimenta Big Sur é este embate de Duluoz entre seu alcoolismo avançado e sua vontade de ficar isolado, buscar paz em meio de um mundo que não é mais o dele, um mundo que está se transformando e engolindo o rei beatnick. Entretanto, Jack não consegue ficar longe da farra e da bebida, deixando a vida selvagem em Big Sur e retornando aos bares de São Francisco em vários momentos do livro. Se somente a bebida e a fama já são dureza para Kerouac, soma-se a isto um progressivo colapso mental, deixando ele ainda mais confuso e deprimido. Como podem ver, Big Sur é um livro pesado e um tanto deprimente, mas ainda assim conserva a sensibilidade do escritor e pequenos momentos de alívio.
No verso do livro, da edição da L&PM, está escrito que este é o romance mais honesto de Kerouac. Talvez por ser um desabafo de raiva por ser famoso, já que o sucesso de On the road não combinou muito com sua natureza reclusa e tímida. Em uma determinada parte do romance, onde Duluoz reencontra Cody (Neal Cassidy, o Dean Moriarty de On the road), os dois se olham sem dizer uma palavra, e mesmo assim, Duluoz compreende que aquele tempo só deles não existe mais. Agora é fama, muita gente querendo saber tudo daquela dupla de aventureiros loucos, o que incomoda muito Kerouac. Por muitos motivos, a relação dos dois não é a mesma de On the road, e eles sabem disso. A vida muda as pessoas, e Kerouac está perto de seus 40 anos, barrigudo, bêbado e descrente na chamada geração beat.
kerouacEstou usando Kerouac e Duluoz, o autor e a personagem, de forma inteiramente intercambiável por uma razão. Como os conhecidos de Kerouac sabem, e como comentei no post de The dharma bums, as “ficções” de Kerouac são altamente baseadas em sua própria vida. Como é explicado neste excelente post de David Furtado, Jack Kerouac era bastante fã de Marcel Proust e carregava uma edição de Em busca do tempo perdido como talismã, o que levou o autor a pensar seus livros como uma grande obra única: The Duluoz Legend. Em um prefácio da edição americana de Visions of Cody, Kerouac diz que seu trabalho se parece com Em busca do tempo perdido, de Proust, sendo que On the road, The subterraneans, The Dharma bums, Doctor Sax, Maggie Cassidy, Tristessa, Desolation Angels e mais alguns outros não passam de capítulos da grande obra que se chama The Duluoz Legend.
The Duluoz Legend deve ser lida em ordem do acontecimento dos fatos, não na ordem em que os livros foram publicados. Achei algumas listas dos livros que compõem a grande obra de Kerouac. Na Wikipédia, a ordem é a seguinte: Atop an underwood: Early stories and other writings; Visions of Gerald; Doctor Sax (que parece ser bastante experimental e pouco acessível); The Town and the city; Maggie Cassidy ; Vanity of Duluoz; On the road; Visions of Cody (considerado um dos melhores); The subterraneans; The dharma bums; Desolation angels; Tristessa; Big Sur e Satori in Paris. Aquele post do David Furtado faz um bom resumo de sua vida, mesclando-a com algumas das principais obras de The Duluoz Legend.
Depois de ler Big Sur e ficar sabendo da lenda de Duluoz, meu interesse pelos outros livros de Kerouac cresceu bastante. Ele não é um escritor perfeito, muito menos foi uma pessoa perfeita. Algumas partes de seus romances são cansativas, dizem que até mal escritas, mas mesmo assim são obras interessantes e fortes. Kerouac foi revolucionário, inconformado e com fúria de viver. Negava a sociedade do pós-guerra e buscou a iluminação do budismo, mas no fim da vida, reconciliou-se com o cristianismo de sua família e defendeu a guerra do Vietnã. Foi um cara interessante, mas nem um pouco perfeito. Ainda assim, quero ter em minhas mãos mais livros que compõem a lenda de Duluoz, talvez por ser um retrato elétrico, confuso e bastante realista de uma vida que se tornou ídolo. Os próximos que quero ler são Tristessa, o conto do envolvimento amoroso de Kerouac com uma bela mexicana viciada em heroína, e Maggie Cassidy, sobre o primeiro amor de Jack durante a adolescência e sua vida em Lowell, Massachusetts.

sherlock-_-a-study-in-scarletAlém de ter lido “The dharma bums” nestas férias, li também “Um estudo em vermelho” de Arthur Conan Doyle, o primeiro caso de Sherlock Holmes. Só conhecia este famoso personagem de ouvidos e com as duas adaptações cinematográficas de Guy Ritchie, Robert Downey Junior e Jude Law. Alias, preferi ignorar a caracterização que Conan Doyle faz de seus personagens para ficar com Downey Jr e Jude Law como Holmes e Watson, respectivamente. É mais divertido ficar imaginando eles durante a leitura do livro.

A obra original de Conan Doyle sobre Holmes é vasta, totalizando em 4 romances e 56 contos. Após “Um estudo em vermelho” seguem-se “O signo dos quatro”, “O cão dos Baskervilles” e “O vale do terror”. Os contos estão reunidos em diversos livros, como “As aventuras de Sherlock Holmes” e “O último adeus de Sherlock Holmes”. Este primeiro romance do cânone apresenta um caso de aparente homicídio, em que a vítima não apresenta cortes ou ferimentos, sendo encontrada esticada no chão de um cômodo vazio junto com a palavra RACHE na parece, escrita com sangue, e uma aliança junto ao corpo. Tudo desenvolve-se a partir daí, levando a trama até Salt Lake City, nos EUA, e envolvendo a comunidade mórmon. Nunca tive medo dos mórmons, até ler este livro.

Acredito que esse livro é bom para quase todo mundo, desde aqueles que estão iniciando agora e não sabem com qual bom título começar, para os mais relaxados, para os mais “cultos”, para os amantes do gênero e para quem nunca tinha lido um livro policial. Leio muito pouco deste gênero, e não sei por quê, mas tinha a impressão que a linguagem iria ser mais travada por uma estrutura antiga e por joguinhos bestas de “quem matou quem”, “quem será o culpado”, etc. Mas não. A narração do doutor Watson não se apega aos extremos detalhes do crime (somente na conclusão) e não há uma atmosfera artificial e forçada para criar suspense. O livro tem uma narrativa bastante rápida, com ganchos ao fim de cada capítulo e linguagem fácil.

Doyle é bastante competente e toda a fama de Sherlock Holmes não é a toa, o livro é realmente bom e muito inteligente. Vale a pena por mostrar como Sherlock Holmes e o doutor Watson se conheceram em Londres, pela descrição das habilidades e vícios dos dois companheiros e pelo fascínio que o temperamento e a inteligência do detetive exerce em Watson e, consequentemente, em nós leitores.

Os vagabundos de Dharma

dharma bums
A geração beat, formada principalmente por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Neal Cassady e Gary Snyder, foi um grupo de escritores norte-americanos desencantados com a América do pós-segunda guerra mundial. O grupo teve maior fama nos anos 50, sendo que a vida e obra de seus membros foram permeadas pela negação aos conceitos instituídos na sociedade, pelo uso de drogas, por um modo novo de se fazer escrita e de viver, pegando a estrada ou a trilha, praticando a sexualidade por vias alternativas, adotando religiões orientais e tendo uma postura antimaterialista perante a vida. Muitos consideram os autores beatniks como precursores do movimento hippie, e o livro The dharma bums de Jack Kerouac sustenta muito bem esta afirmação.
The dharma bums, trazido aqui no Brasil como Os vagabundos iluminados, foi publicado em 1958 e baseia-se no período em que Kerouac (Ray Smith, no livro) estava interessado pelo budismo e pelo montanhismo, atividades introduzidas por seu amigo Gary Snyder (Japhy Ryder, no livro). Não há muito que contar como sinopse deste livro: Ray Smith está buscando se aperfeiçoar em seu budismo e ao conhecer Japhy, os dois passam a ser bons amigos e compartilham sonhos e festanças, vivendo de maneira simples aproveitando as estradas e a natureza oferecem. Passado principalmente em São Francisco e redondezas da Califórnia, o livro é embalado por viagens de carona, caminhadas, subidas em montanhas e invasão de trens cargueiros, uma vez que os personagens do livro não se apegam a moradias fixas, vivem com pouco dinheiro e valorizam muito a experiência direta com o mundo. O termo beat também é entendido como beaten down (quebrado ou cansado), fazendo referência ao modo simples e barato de viver de Kerouac, assim como o ideal de budismo que o personagem/autor busca, uma espiritualidade calma desapegada das coisas materiais. Além das viagens e montanhismo praticado com Japhy, há cenas de yab-yum, uma prática sexual presente em algumas religiões orientais, de bebedeiras, de festas gigantescas, de solidão e de contemplação.
Em uma certa parte do livro, enquanto Japhy e Ray estão em uma roda de amigos conversando, Japhy descreve uma imagem que é a essência de The dharma bums: um andarilho esfarrapado e cansado, carregando uma mochila nas costas, anda por uma rua de um subúrbio americano, onde há a mesma luz azulada saindo das janelas de todas as salas de televisão. O viajante atravessa a rua e é o único que não é escravo das telas, pois pode pensar diferente enquanto dentro daquelas casinhas, todos pensam exatamente a mesma coisa. Esta imagem capta bem o que aparece no livro como “revolução da mochila” ou rucksack revolution, o desejo de Japhy que toda a juventude deveria largar seu conforto e suas mentes pequenas, pegar uma mochila e percorrer as estradas e a natureza do continente. O que os vagabundos de dharma colocam em cheque é o sistema produzir-consumir-produzir-consumir que esgota e tira a vitalidade das pessoas, concepção resgatada pelos hippies posteriormente.
Um livro bastante inspirador, onde Kerouac relata de um modo lírico e objetivo suas viagens, seus momentos de festa e poesia e as andanças em busca da iluminação. Não sei dizer se os princípios budistas apresentados no livro são fieis aos ensinamentos do budismo original ou de alguma corrente variante deste, mas já li que o budismo aprendido por Kerouac e por muitos outros ocidentais sofreu deturpações e reinterpretações do budismo oriental, o que ocorre frequentemente com quase todas religiões, ideologias e filosofias. Em fim, achei mais interessante o que Kerouac tem a dizer sobre seus amigos e suas vivencias do que sua busca espiritual. Um livro menor, as vezes obscurecido por On the road, o clássico de Kerouac, mas ainda tem o mesmo potencial de abalar nossa rotina e implantar o desejo de sair por aí, se enfiando no mundo e buscando um jeito de viver mais livre, mais louco e mais autêntico. A maneira de Kerouac contar a história nos provoca uma nostalgia de uma não-experiência, um tempo não vivido por nossa geração, onde as estradas eram menos perigosas e repletas de esperanças. Mesmo assim, com as ruas de hoje mais assustadoras e apocalípticas, Kerouac nos dá um sopro de vida.

“Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte “lunática” de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana do México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso (…)”

Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os mais novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana.  (Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac)

MAR080233-640x1024 Já conhecia o inglês fanfarrão por meio das publicações caóticas  que meu irmão acompanhava aqui no Brasil. Li algumas histórias dessa primeira etapa mesmo, do run do Jamie Delano, e outras do próximo run, escrito por Garth Ennis (Preacher, Hitman). Mas só agora, com Hellblazer Origens pude mergulhar neste universo, conhecer e ficar viciado mesmo no personagem. E só agora entendi de fato aquele selo clássico suggested for mature readers. Não é só sexo e muita violência, são nuances que somente adultos compreendem. Hellblazer se trata da vida e das desaventuras de John Constantine, um inglês da classe operária cuja vida é cheia de podres, de mistério e de magia. Mas, por favor, se você espera que esta série do Delano tenha alguma coisa a ver com aquele filme mediano estrelado pelo Keanu Reeves, já saiba que é bem o contrário. O filme faz uma injustiça danada com os quadrinhos de Constantine e a magia daqui é algo muito mais sombrio, pertencente mais ao gênero do terror do que da fantasia. Dito isso, dá pra saber que John Constantine cativa quem gosta de magia e de quem não fecha os olhos para as coisas feias do mundo.  A série é bem longa mas já foi concluída nos EUA, teve 300 números e mais de 8 escritores encaminhando a história. A série Hellblazer Origens, da Panini, contempla as primeiras 40 edições, a etapa completa de Jamie Delano, e terá uns 7 encadernados, estando atualmente no volume 5.

Feita essa brevíssima apresentação, vamos aos comentários. A história conduzida por Jamie Delano mostra um mundo sombrio, de desesperança, de desgraças políticas, familiares e sociais. O primeiro encadernado, Pecados Originais, nos joga em Londres, no fim da década de 80 com um grande demônio da fome a solta, a presença da juventude hooligan e preconceituosa, demônios que especulam almas no mercado financeiro e uma luta metafísica entre o Exército da Danação e os Cruzados da Ressurreição. Nas primeiras duas histórias deste encadernado, sobre o Mnemoth o demônio da fome, John viaja para os EUA e para a África em busca de saber como parar este grande ser que faz com que as pessoas consumam tudo do que elas mais desejam de forma desenfreada, seja carne ou jóias. Nesta primeira história, já aparece a fórmula central que é John Constantine: o cara é inteligente, sagaz, um malandro bem vestido que conhece as pessoas certas e que leva seus amigos pro buraco. Enquanto ele arquiteta tudo e os outros pagam o pato, ele sai quase ileso. Quase. Ao longo da série, essa atitude vai sedimentando a culpa e a loucura em Constantine, formando traços fortes em sua subjetividade.

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E é assim que Constantine é. Inspirado em Sting, do The Police, o mago se vira com sua esperteza, seu charme e seus cigarros. Trabalhando sozinho, usando pessoas para seus objetivos ou sendo a cabeça de outros músculos, Constantine não defende nem o céu e nem o inferno. Como os dois lados são quase a mesma coisa, forças metafísicas que oprimem a humanidade em prol dos próprios interesses, não há uma grande simetria entre bem e mal. Constantine quer somente se virar, usando magia de uma forma terrena. Aliás, muito pouco se fala de aspectos ligados ao catolicismo durante o run de Delano, fora o enredo já batido da volta de um messias à Terra e um embate entre os crentes e o inferno. O enfoque é maior para coisas como paganismo, geomancia, linhas de ley e magias arcanas.

Voltando ao Constantine, o filho da puta cresce em você. É difícil não simpatizar com o personagem e deixar de viver o seu sofrimento. Não importa se ele acaba traindo algum amigo ou se ele acaba fazendo besteira, a gente gosta desse cuzão. Ele é legal demais para ser odiado. Aquela história em que ele está deprimido em Gotham e acaba percebendo que completou 35 anos de vida é memorável. Um roteirista e um personagem e tanto.

Hellblazer-07-BR_P gina_19_Imagem_0001Sobre a escrita de Delano, é algo de respeito. De vez em quando ele dá uma escorregada em uma ou outra história mediana, mas em geral o roteiro de Hellblazer é muito bom. Cheio de quadros narrativos, Delano insere poesia e ilustra um mundo mágico e perverso com palavras. De início, pode ser meio pesado e parecer “encheção de linguiça”, mas dá aos quadrinhos de Constantine um verdadeiro toque literário refinado. Entre os temas recorrente nas histórias de Delano, fora a magia, é claro, há crítica ao conservadorismo social e político, há ecologia, cultura hippie, guerra das malvinas, há questões sobre as forças femininas e masculinas, ligadas a assuntos como machismo, família e casamento. Delano também faz bastante referência a livros, arte e filmes, como a banda Velvet Underground, Bogart e O Senhor das Moscas. Enfim, é um texto maduro, competente e inteligente. Tem muitas história legais; uma ou outra são divertidas, mas a maioria é puxada para o gênero terror/suspense, sendo sombrias e  às vezes bastante complexas, como o imenso A Máquina do Medo.

Sei lá o que realmente queria escrever aqui sobre a série Hellblazer Origens, só espero que mais gente conheça essa ótima história em quadrinhos e parem de ficar tanto nas adaptações hollywoodianas. A editora Panini está fazendo um bom trabalho, os preços estão legais pro bolso, então está valendo a pena investir nesta série. Fui comprando devagar, começando pelo vol. 3 e 4, A Máquina do Medo Ato I e Ato II, e aí pegando o resto quando o orçamento mensal deixava, e agora virou uma coleção legal que gosto de tê-la.

Não sei como estão as últimas temporadas de Supernatural, assisti somente até a quinta temporada e achava muito boa, era coisa foda mesmo. Ao meu ver os fãs de Supernatural precisam conhecer Hellblazer, seja fase do Delano ou do Garth Ennis, assim como os outros trabalhos da Vertigo, como o Sandman do Neil Gaiman. Tem bastante coisa na internet comparando Supernatural com obras do Gaiman ou com aspectos do mundo de John Constantine, e quando assistia, dava para identificar certas influências. Não é a toa, visto que o criador da série de TV, Eric Kripke, é um grande fã de John Constantine e até usou o visual do mago para criar o anjo Castiel. Então, acho que Hellblazer tem muita gente a cativar ainda.DSCN4248Hellblazer Origens

NOVA VERSÃO DESTE POST NO NOVO BLOG! VISITEM http://novoresenharexperientia.wordpress.com/2013/12/04/a-segunda-temporada-de-twin-peaks/

 

Em uma dia da semana passada acordei com aquela melodia misteriosa da abertura do Twin Peaks na minha cabeça. Como música quase sempre ajuda a estudar, resolvi colocar a soundtrack da série no youtube enquanto fazia um trabalho para faculdade. Porém, em vez de estudar, acabei sendo levado de volta ao mundo de Cooper e Harry, criado por David Lynch e Mark Frost. Comecei a lembrar de um monte de detalhes bacanas, como a mulher meio louca que anda com um tronco de árvore, o anão que fala ao contrário, os sons misteriosos que preenchiam os episódios e várias outras coisas. Me deu vontade de comprar aquele box da série completa a assistir tudo de novo. Twin Peaks é genial, uma das minhas séries favoritas.

Aí lembrei que tinha inaugurado o Resenhar Experientia com um post sobre a primeira temporada, que escrevi quando tinha acabado de assisti-la. Quase 1 ano depois, com essas impressões que a trilha sonora da série despertou, resolvi escrever sobre a segunda temporada. Mas é uma escrita mais ao acaso, levada pelas minhas lembranças e sentimentos, sem pesquisa e pretensão de analisar ou fazer uma resenha extensa sobre a série.

Apesar de comentar sobre algumas coisas de maneira vaga, não soltarei nenhum spoiler aqui. Então, prossiga tranquilo e sem medo de ter sua experiência com a série estragada. Para aqueles infelizes desinformados, Twin Peaks é uma série de televisão norte-americana criada por Frost e Lynch, como havia dito acima. A série segue a investigação do agente do FBI Dale Cooper sobre o assassinato da popular estudante colegial Laura Palmer. Mas isso é somente o pontapé inicial para dar vida a pequena cidade surreal, mística e engraçada que leva o nome da série. Reduzir a série ao drama policial seria destruí-la. Durante os episódios há um balanço entre comédia, drama, terror e romance. Além disso, a segunda temporada transcende o gênero policial, levando os elementos apresentados na primeira temporada à um nível mais elaborado de terror/misticismo e surrealismo (é David Lynch). Como está na wikipedia: Twin Peaks se tornou um dos programas mais assistidos da década de 1990, um sucesso de crítica tanto nacionalmente quanto internacionalmente. Refletindo seus fãs dedicados, a série se tornou parte da cultura popular, sendo referenciada em outras séries de televisão, comerciais, quadrinhos, jogos eletrônicos, filmes e músicas.

Primeiramente, temos que mencionar as músicas. Não dá para imaginar a série sem as músicas de Angelo Badalamenti e Julee Cruise. O jazz perturbador, Falling e  World Spins são tão importantes como os personagens, oferecendo uma atmosfera perfeita. Outra coisa bem legal da série é a maneira como os personagens, a cidade e os eventos se relacionam. O roteiro e a dinâmica de Twin Peaks é foda, acho que nunca vi uma série ou filme que carrega suas tramas e personagens com tamanha sincronia.

Falando em personagens, a série tem um cuidado especial na criação destes. Eles são bem construídos, com um passado, segredos, capazes de mudarem conforme a série anda. Ou seja, são conduzidos de uma forma coerente e humana. Não entro em detalhes aqui, mas basta dizer que há certa sensibilidade e carisma rodeando os atores. Por exemplo, há um trecho em que Donna, uma das amigas de Laura Palmer, está conversando com Harold, que supostamente estaria com o diário de Laura (que contém informações importantes sobre a vida da garota e seu assassinato). Donna desenvolve uma atração pelo cara, apesar dele ser um pouco recluso e suspeito, então ele fala: “Eu cresci em Boston. Bem, a verdade é que cresci no meio de livros.” Harold desvia o olhar meio envergonhado. Então Donna se desencosta da poltrona, inclina-se um pouco em direção ao rosto dele e fala: “Existem coisas que os livros não podem te dar.” Harold responde: “Há coisas que não se consegue em lugar nenhum. Mas sonhamos que podemos achar em outras pessoas.”

Bom, agora sobre o final. E NÃO direi O QUE ACONTECE.

No post sobre a primeira temporada de Twin Peaks escrevi que sabia que a terceira temporada da série tinha sido cancelada, mas que estava torcendo para um fim decente para a história. Duplo engano meu. O final da série é algo chocante e leva a série a um novo patamar de insanidade, além de deixar o cerne da trama de pernas para o ar. Então, Twin Peaks tem um fim aberto, não tem um final que descreveria como “decente”.  Aí que está meu segundo engano: o final de Twin Peaks é uma coisa meio de amor e ódio, é perfeito em sua imperfeição e inconclusão. As vezes eu penso como seria uma terceira temporada feita agora, tanto tempo depois daquelas duas pérolas, e me parece que seria uma porcaria. Acho que aquele não-final tem que continuar lá, decente em seu lugar. Alias, é esse final que deixou todo mundo doido de curiosidade e raivoso por não saber o que vai acontecer que ajudou a consagrar a série.

No post anterior sobre The Prisoner, coloquei uma esquema que ilustra a influência que a série britânica causou na cultura ocidental, e lá está Twin Peaks. Mark Frost declarou que é fã de The Prisoner e quando assistiu a série quando criança, sua cabeça explodiu em vários pedaços. Bom, ele conseguiu realizar o feito com outra geração. Sabendo dessa influência entre as duas séries, é impossível não comparar o final de The Prisoner com a natureza do final de Twin Peaks. É um visual e uma narrativa insana, surreal. Os dois finais me deixaram perturbados, entretanto, isso não impediu minha afeição pelas duas séries.