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Archive for setembro \17\UTC 2011

Inside Job (2010) é um documentário dirigido por Charles H. Fergurson, um cineasta não muito famoso mas que produziu seguramente uma bela obra. O documentário com narração de Matt Damon trata da crise econômica de 2008, ele tenta explicar o por que daquela crise que ainda tem suas consequências nos dias atuais. Ele consegue chocar e levantar muita discussão sobre a situação atual da economia mundial e sobre quais seriam as consequências caso esse sistema se prolongue.

O documentário põe como principal causa da crise a desregulamentação. Eu ja tinha conhecimento dessa palavra devido a outro documentário do Michael Moore chamado “Capitalismo- uma história de amor”, que inclusive recomendo que assistam como um complemento, apesar de este segundo documentário focar também na politica dos EUA. Desregulamentação seria a palavra chave da politica neo-liberal vigente na sociedade comtemporânea, trata-se de por em prática a filosofia neo-liberal de tentar excluir ao máximo o papel do estado na economia. Desregulamentação seria então, como o próprio nome ja diz, o afrouxamento de leis e regras econômicas para bancos, financiadoras, empresas de seguros, corretores, executivos, enfim, todos os principais responsáveis por reger a economia mundial. O resultado dessa desregulamentação foram trágicos e continuam a ser. A política econômica também envolve, e isso pode ser comprovado nos EUA facilmente, na eliminação de programas sociais para pobres e enfraquecimento de sindicatos e de toda a classe trabalhadora. Nós podemos observar esses efeitos facilmente até no Brasil, e hoje na Europa a crise que assola a Grécia, e mais para frente vai atingir também Espanha e Portugal tem muitas características dessa política neo-liberal. Tratam-se de paises com taxa de desemprego acima de 10% (alguns até acima de 20%) que encaram dividas astronômicas que o governo faz para salvar a economia. Nos EUA recentemente, houve um pânico devido a possibilidade de calote da divida externa. No fim das contas o congresso aumentou o limite da dívida externa dos EUA, que é o pais que mais deve no mundo. Essa aprovação não veio de graça para o povo, pois o projeto preve o corte de investimentos a programas sociais e não continha o aumento de impostos para os mais ricos. Estes são exemplos dessa política econômica atual que prova estar sendo muito falha.

A política de desregulamentação dos EUA permitiu que os bancos emprestassem a vontade, e que a população fizessem acordos extremamente arriscados que levaram a um crash na economia. Milhares perderam suas casas na crise imobiliaria e vários faliram. Por contradição o governo, que não deveria participar da economia, teve que agir rapido e injetou bilhares de dolares na economia para salvar os bancos. O problema é que normalmente esse dinheiro vai para os executivos e é usado para reiniciar o sistema falho. Inclusive vale dizer que os principais responsáveis pela crise ocupam cargos de confiança no governo estadunidense hoje, enquanto durante a crise, transformaram a economia num cassino onde cada um apostava quantias exorbitantes de dinheiro que nem eram deles. O que acontece então é que somente uma pequena parte dos investidores recebem os lucros, e a maioria perde tudo. A pergunta que sobre então é: será esse sistema capitalista neo-liberal realmente a solução para os problemas do mundo? propaganda que foi muito divulgada nas ultimas décadas e, Será esse sistema sustentável?

A política econômica da desregulamentação permitiu a entrada de criminosos e investidores extremamente ambiciosos na economia, e o pior, nos principais setores. Com a falta de fiscalização, ou até de regras para estes seguirem, encontraram caminho aberto para lucrar muito a custa da perda muitos outros. Outro ponto é o enfraquecimento das camadas sociais mais pobres, nos EUA o sistema de saúde inexistente deles, obriga ao povo pagar planos de saúde e quem não conseguir pagar estara entregue a própria sorte. No Brasil acontece algo semelhante, apesar de ainda termos o SUS que apesar de estar longe ser perfeito, pelo menos ainda da alguma dignidade ao atendido. Além disso, o fundo de pensões e aposentadoria no EUA serviu para injetar na economia para salva-la, ou seja, o aposentado poderá não encontrar seu dinheiro quando precisar. Na Grécia, recentemente, devido a crise econômica que ameaça toda a Europa, o governo aprovou o corte de gastos com programas sociais e o aumento de impostos, mostrando que nesse tipo de crise causada pelos mais ricos, quem paga são os mais pobres. Até no Brasil, o jovem é incentivado a financiar sua faculdade, enquanto o governo investe metade do PIB em gastos com bancos e não investe nem 10% dele em educação, ou mais recentemente ainda, o governo propõe aumentar os investimento para a saúde, mas para isso propõe aumentar ou criar um imposto.

A politica neo-liberal se provou falha e insustentável, e provavelmente levará o mundo a crises cada vez piores da economia. A eliminação do estado na economia não mais se faz melhor, muito pelo contrário, permitiu que alguns ganhassem as custas da população inteira. O documentário propõe, além de outras coisas, que o estado tenha uma participação maior na economia, de maneira que a regule para que esta não esteja entregue a qualquer um. E que acima de tudo, esteja sempre a favor do povo, pois este é o que mais sofre diante de todas essas crises. Os programas sociais (salvo alguns) são necessários para manter a dignidade da população. É necesário também que especialistas de diversas camadas da sociedade discutam entre sim sobre como tornar o capitalismo mais ético e democratico. Particularmente ainda acredito neste sistema, mas não da maneira como ele está.

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A Onda (2008) é um filme passado na alemanha que retrata uma história real. Trata-se de uma experiência realizada pelo professor Rainer Wenger com seus alunos de idade colegial (16~17 anos, creio). O professor é responsável pelas disciplinas de educação física e ciência política (acho que um equivalente a ciências sociais aqui) e recebe a tarefa de ensinar de ultima hora a matéria de autocracia, ou seja, passar para os estudantes como seria um governo autocrata. Ele resolve ensinar na prática, e começa realizar uma dinâmica de grupo baseada na disciplina, ordem, e discurso de autoridade. Esta experiência, no entanto, perde o controle e traz consequências desastrosas para o professor, para os alunos, e todas as outras pessoas envolvidas com o grupo.

O filme é uma metáfora do processo de surgimento do nazi-fascismo que tomou a Alemanha e a Itália na década de 1930 e trouxe consequências tão cruéis na história da humanidade. O interessante é notar que, infelizmente, este discurso fascista não morreu completamente, na verdade ele esta mascarado, e pior ainda, de muitas maneiras. Quando analisamos a essência desses discursos, e é isso que o filme propõe ao telespectador, vemos que podemos incluir nessa categoria, fanaticos religiosos, sejam eles cristãos, muçulmanos, etc., conservadores de extrema direita (posso usar como exemplo certos grupos dos EUA), skinheads que estão localizados em diversas partes do mundo, etc. Por isso é valido dizer que a discussão sobre intolerância, atutoritarismo, ideologia, dogmatismo, em certos contextos é muito atual  necessária.

O filme também retrata um aspecto muito peculiar da nossa sociedade. Logo no início dele há um dialogo entre dois estudantes que dizem que hoje em dia os jovens não tem mais pelo que lutar. Há uma ausência de valores, e muitas vezes os jovens se encontram perdidos e vazios no mundo, extremamente vulneráveis para ideologias como essas, que envolvem o indivíduo, dão a ele significância tranformando-o num indivíduo inserido num grupo, tornando-o forte e especial. No momento do filme que os alunos começam a marchar mostra muito bem isso. Alguns ali sentiram pela primeira vez nas suas vidas, a integração a um grupo, que não se limita a suas “turminhas” de amigos, mas que vão além de suas vidas. A Falta de orientação e valores vividas pelos jovens do filme e por quase todos os jovens atualmente permitem o levantamento de um outro raciocínio. Quais são exatamente os limites que separam um movimento fundado em argumento e numa ideologia racional e democratica, e o movimento autoritário, intolerante, irracional e muitas vezes violento? Em outras palavras, qual a separação entre o racional e o irracional?

Esta discussão é muito importante, pois muitas vezes esses limites não são fáceis de ver. Observamos na história, principalmente no século passado, a ascensão de regimes que levaram longe demais seus ideias. Observamos também, muitas vezes intrinsecos, movimentos populares que muitas vezes servem para reinvindicar direitos e lutas por melhores condições de vida e uma sociedade menos desigual. Só que muitas vezes a causa deixa de ser legítima, ela perde seu potencial de debate e se torna dogma, se baseando no discurso de autoridade. Poderiamos dizer sobre uma necessidade quase inerente da sociedade de levar os argumentos aos extremos e ignorar qualquer idéia que venha contradizer a ideologia do grupo. Podemos buscar algumas respostas no filme. Por exemplo, a questão da disciplina e autoridade. Em regimes totalitários, essas duas características são fundamentais, elas permitem o desenvolvimento da força e identidade do grupo, permite que cada membro se identifique e se sinta parte do grupo, mas por outro lado, exclui a capacidade de discussão e debate sobre a ideologia do grupo. Outra questão seria a fraqueza individual, o desespero e muitas vezes o medo. Estes eram sentimentos comuns na Alemanha nazista, completamente destruida e falida depois da primeira guerra mundial, e estes sentimentos permitiram a ascensão do nazismo, do preconceito, e do ódio aos judeus. No entanto, estes sentimentos não morreram lá, eles ainda estão presentes no mundo atual. O muçulmano fanático ainda tem o medo e o desespero ao ver seu país invadido e destruído. O jovem ainda se sente isolado e solitário ao sofrer bullying na escola, ou quando seus pais não são suficientemente bons. Estes são só alguns exemplos, de como fatores antes vistos ainda permanecem, claro que variando de grau para cada evento, mas que reuni estes exemplos dentro de um mesmo grupo. Por isso, ainda é fácil ultrapassar o limite, por isso ainda é fácil se deixar levar pelo fanatismo e cometer crimes contra a humanidade. A Ditadura ainda é possível, e está bem presente na nossa sociedade. Talvez o limite possa ser visto, mesmo que de longe, quando ao menos falamos dele. A discussão, orientação e o debate são extremamente necessários nos tempos atuais, aleas sempre foram. Quando você discuti suas ideias e conceitos com a comunidade é bem possivel que você não se perca em seu próprio mundo, pois neste momento você estará experimentando outros argumentos, outras ideias que muitas vezes vão até melhorar o seu. Este deve ser o verdadeiro poder da comunidade, a capacidade do desenvolvimento ético, moral, teórico-científico em prol da sociedade. Creio que está foi a mensagem que o filme passou, para não nos perdermos nas nossas próprias ideias, e muito menos aceitarmos na íntegra discursos alheios, tomando seus autores como autoridades.

Para finalizar, disponibilizarei um link que contém uma resenha muito interessante de um professor que falou de um outro filme, que diga-se de passagem tem o mesmo nome e trata do mesmo evento.

http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm

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O conformista (1970)

O conformista (Il Conformista, 1970), dirigido e adaptado por Bernardo Bertolucci é um drama político sobre um jovem italiano, Marcello Clerici, que aceita trabalhar para o ditador Mussolini. Agora espião da polícia secreta, ele precisa matar seu antigo professor de filosofia que está exilado em Paris. Porém, se apaixona pela esposa do professor e reluta em cumprir a missão. Il Conformista mostra a mentalidade da classe média italiana no período fascista da década de 30.

Parece ser um filme de ação, mas na verdade é um retrato do desenvolvimento da personalidade de Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant), em como ele busca levar uma vida normal, mesmo que para isso precisa trabalhar para a polícia secreta e se casar com uma moça burguesa que nem ama. É preciso ficar atento a tudo o que acontece com o personagem principal.

Marcello vem de uma família disfuncional de classe média, com uma pai internado por sífilis e uma mãe solitária. Em um flashback, vemos Marcello ainda criança matar um soltado que tentou molestá-lo. A cena do trauma sexual sofrido durante a infância sugere uma ligação entre homossexualidade e a personalidade fascista.

Na primeira parte do filme, Marcello visita os pais e prepara seu casamento. Se confessando com o padre, exigência feita pra ele poder se casar, Marcello diz não se importar com o perdão de Deus. É insignificante. Ele quer perdão da sociedade, se conformar com ela. O matrimônio e a aliança com o fascismo servem como início seguro para a normalidade:

“Vou construir uma vida normal. Vou me casar com uma pequena burguesa. Medíocre, cheia de ideias triviais, cheia de ambições triviais. Ela é toda cama e cozinha… Normalidade”.

Depois da festa de noivado com os amigos de Marcello, sem a presença da própria noiva, está na hora de começar a missão e ir para Paris. No primeiro encontro entre o agente e o professor, este compara Marcello e a Itália com as pessoas presas na caverna de Platão. Os italianos e Marcello em sua conformidade, estão vendo a sombra da realidade, estão vivendo uma ilusão. Ser um conformista é ser o que o estabilishment, o status-quo,  quer que você seja. No caso do filme, acreditar no fascismo como real tipo de governo.

Aí a história se desenrola conforme Marcello se aproxima de Anna, a esposa d professor, e começa a ser pressionado por seu colega da polícia secreta que o supervisiona.

Lembrei bastante do filme “Um homem bom” (Good, 2008) em que Viggo Mortensen, interpretando um professor de literatura, se envolve aos poucos e indiretamente com o partido Nazista em busca de uma vida confortável, chegando a um ponto sem volta.

Uma coisa eu já saquei: ver filmes antigos, diferentes, seja europeu, asiático ou os denominados  “filmes de arte”, exige esforço, atenção e muita paciência.  Leva tempo. Se trata de filmes feitos em outro espaço-tempo, segundo outros paradigmas e outras demandas. Não acho fácil se acostumar com um ritmo mais devagar ou com efeitos visuais mais pobres. Se o filme for bem realizado, ter um tema pertinente e ótimas atuações, ele transcenderá a necessidade de tecnologia e durará muitas décadas. No meio d`O Conformista eu fiquei com sono e quase pulei uma cena, e só fui digerir o filme algumas horas depois de termina-lo, indo pro inglês. O filme me prendeu mais pela estética e pela música. Em algumas cenas me peguei distraído, tamanha a sutileza e calmaria das cenas, incompatíveis com a nossa era da velocidade. Mas valeu o esforço.

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Ingmar Bergman (1918 – 2007) foi um cineasta sueco que possui uma filmografia contando com aproximadamente 50 títulos (O Sétimo Selo, Gritos e Sussurros, Persona, Sonata de Outono, dentre muitos). Filmes considerados herméticos, obscuros e misterioso, geralmente abordam conflitos psíquicos, angústias e dilemas recorrentes da vida. “Morangos Silvestres” não é diferente. Esse premiado filme aborda uma viagem de um professor idoso que será homenageado em Lund, misturando lembranças com sonhos enquanto o personagem reavalia sua vida e começa a se confrontar com a mortalidade. O grande tema de Morangos Silvestres é esse olhar a própria vida de um modo distanciado que somente a idade pode proporcionar. E as vezes o que vemos é desagradável.

Antes dos créditos e do título, o filme abre com Isak Borg, o professor velho, trabalhando em sua escrivaninha. As linhas bem escritas, característica do roteiro, são narradas pelo velho. A primeira coisa que ele nos diz é que convivemos com as pessoas discutindo e criticando-as, e por isso, ele se afastava da vida social e está sentindo as consequências disso, estando solitário em sua velhice. Durante sua vida, concentrou seu foco na Ciência e em sua profissão, tornando-se um professor renomado. Depois de dizer que irá receber um Título Honorário na Catedral de Lund no dia seguinte, a música do filme toca e entram os créditos. Essa cena serviu como uma introdução muito bem executada por Bergman.

Isak resolve partir mais cedo e ir de carro invés de avião, dando um clima road movie. Além de ser acompanhado pela nora, que está num casamento em crise, Isak dá carona para três jovens e  para um casal briguento, que logo são deixados na estrada. Mas isso depois de parar no caminho para visitar sua antiga casa da infância e encontra o canteiro de morangos silvestres. A partir daí, Isak Borg revive vários momentos da infância com um olhar já gasto, sábio e melancólico. A viagem não é só geográfica, é também espiritual.

Frequentemente acusam Isak de ser uma pessoa egoísta e fria, e dentro do carro em movimento, sua nora confessa que seu marido parece muito com Isak. Esse é um dos assuntos chave no filme: O velho tornou-se uma pessoa fria sem perceber, enquanto sua vida tomava caminhos imprevisíveis; e o mesmo parece acontecer com o casamento de seu filho. É mais uma coisa pra ocupar os pensamentos de Isak.

Certamente que não consigo colocar um resumo digno, bem estruturado e explicado, mas acredito que a sinopse não passa disso.

A cena em que o professor tem um estranho sonho representa os melhores minutos do filme. A direção, os movimentos de câmera, a fotografia e o clima surreal compõem uma daquelas cenas que podem ser vistas a parte do filme, de tão potentes. Vejam a sequência: http://www.youtube.com/watch?v=A3n4TxNeaPg. Falando em fotografia, Gunnar Fischer, da equipe de Bergman e responsável pelas fotos é foda.  Fotografia de mestre.

Tinha muitas expectativas em relação a esse filme e sinto que elas não foram supridas. Achei parado e não muito reflexivo. “O Sétimo Selo” (para mim muito mais filosófico, sombrio e intrigante) me agrada muito mais e aborda a mortalidade e a existência com mais garra, apesar de críticos considerarem Morangos Silvestres igualmente ótimo. Sinceramente, eu não entendi o papel dos três jovens no filme, só servem como gatilho para lembranças de Isak. Por ser um filme com estética de alta qualidade, temas universais e boas atuações e direção, pretendo rever quando for mais velho. Quem sabe tiro algo diferente do filme, descubro camadas ou algum detalhe importante que deixei escapar.

Acredito que Morango Silvestres agrada mais os “iniciados” na obra de Bergman. Recomendado aos interessados por velhice ou por filmes históricos do cinema. Se nunca viu um filme de Bergman, recomendo que comece por outro mais legal e mais “fácil”.

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