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Archive for outubro \30\UTC 2011

Win Wenders conseguiu. Realizou uma sequência para sua obra-prima sem perder a mão ou cair em seduções baratas de um blockbuster para agradar a todos. Wenders manteve a interessante história sobre anjos e homens regada com diálogos e situações filosóficas; deu maior complexidade ao roteiro, criou novos personagens e fez seu segundo anjo, Cassiel, tornar-se humano.

Apesar de ter gostado um pouco mais de Asas do desejo por ser mais “sólido” e mais direto, sua sequência expande as possibilidades e dimensões da ficção criada por Wenders e é filme obrigatório para quem gostou do primeiro.

In weiter Ferne, so nah! (1993) traz de volta Otto Sanders como Cassiel,  Bruno Ganz interpretando Dammiel, Peter Falk, o ator e desenhista, e apresenta dois novos papeis principais: Natassja Kinski como um novo anjo, Raphaela, e Willem Dafoe como um ser traiçoeiro entre os dois mundos. Lou Reed e Mikhail Gorbachev, fã dos filmes do diretor, fazem pontas no filme. Gorbachev, sendo ele mesmo, aparece escrevendo um discurso no começo do filme. Vale dizer que esse filme não pretende continuar a história de Dammiel e Marion, mas sim narrar a aventura de Cassiel humanizado, num drama que intuitivamente me remeteu à uma mistura de  Oh lucky man! (1973, de Lindsay Anderson) com Neil Gaiman.

Com cerca de 140 minutos, Tão longe, tão perto! tem em si elementos para diversas discussões. Há crítica que faz uma reflexão sobre o olhar, sobre a desorientação e estranheza que a queda do muro de Berlim trouxe para os próprios alemães e uma crítica ao consumismo. Nesse post do Resenhar Experientia, eu quero abordar principalmente um tema que chamou-me a atenção desde o primeiro filme e foi aprofundado neste. A intervenção e a bondade.

É a  história de Cassiel, anjo cansado de não poder intervir e realmente ajudar os humanos, os seres mais  importantes para os anjos. Observando a Berlim unificada com sua amiga Raphaela, Cassiel confessa querer ultrapassar a linha divisória dos dois mundos. Ele acompanha a vida de Dammiel, que consegue senti-lo e compartilha com ele suas experiencias humanas. Dammiel é dono de uma pizzaria chamada Casa dell’angelo e se casou com Marion. Além de praticar as artes do circo, ela agora trabalha em um bar na Berlim ocidental, e os dois tem uma pequena filha. Ao presenciar a queda de uma menina de um prédio, Cassiel se vê no térreo, segurando a menina no colo, transformado em humano. No primeiro filme, Dammiel se transforma pelo amor, neste, Cassiel é transformado pelo desejo de proteger.  Agora humano, sua única posse para começar a vida na terra é a armadura de anjo. No metrô, Cassiel encontra Emit Flesti (Willem Dafoe), que troca a armadura por 200 marcos e o covence a apostar o dinheiro num jogo com um ambulante. Cassiel perde tudo, Emit o abandona e a polícia chega e prende Cassiel enquanto todos fogem. Dammiel vai até a cadeia para tirar seu amigo, e os dois saem contentes por se reencontrarem depois de 6 anos.

A partir de então, a história evolui de maneira errática em torno da tentativa de Cassiel viver, sem deixar de fora um velho motorista nazista que precisa viver escondido, um investigador privado, tráfico de armas, circo, estranhas aparições de Emit Flesti e mortes.

ATENÇÃO, SPOILERS

Sobre ser bom:

Cassiel experimenta na pele a angústia de não conseguir ser um homem decente. Veio à humanidade com o desejo de ser bom e de ajudar as pessoas, mas percebe que as coisas não são fáceis e delimitadas no preto ou no branco. Acho que um exemplo legal é quando Cassiel pega uma arma que foi guardada escondida na rua por um jovem com intenção de matar o pai (ou padrasto, algo assim) com a melhor das intenções, porém, mais tarde assalta uma mercearia com essa mesma arma para roubar uma garrafa de aguardente.

Bêbado e deprimido, o ex-anjo mendiga numa rua, quando se depara com Lou Reed e este dá um incentivo para Cassiel reavaliar sua situação e tentar sair do buraco. “Por que não posso ser bom?”, se pergunta, como diz na música que Reed toca no filme.

Numa engraçada situação de possível tentativa de suicídio, Cassiel se joga contra o carro do criminoso Tony Baker para depois ser contratado como ajudante dos seus negócios. Chegada a hora de Cassiel conhecer o verdadeiro ganha pão de Tony, ele foge e percebe que podemos cair no inferno sem a intenção de fazer o mal. Ora, ele quase entre nos negócios de tráfico de armas e pirataria de pornografia pela ingenuidade. Há muitas formas de fazer o mal, e uma delas e não o reconhecer e o ignorar.Se fosse anjo, estaria condenado a sentar em cima de um prédio e observar crianças morrerem no meio de guerras civis, mas sendo homem, tem a oportunidade de ser bom em sua possibilidade individual. Cassiel toma consciência do tipo de negócio de seu chefe e resolve dar as costas, não colaborar com a perpetuação do crime.

Sobre o tempo:

Esse é um dos temas mais misteriosos do filme e o que me deixou mais pensativo. No começo do filme, Cassiel ainda anjo, está conversando com Raphaela: “Não podemos interferir no tempo.” E ela responde: “Não contávamos com o tempo, Cassiel. Ele já existia. Não achávamos que ele nos faria observadores. É difícil observar o tempo, que sabe tão pouco sobre si e suas próprias dimensões.” Imagino que o ser excêntrico interpretado por Willem Dafoe, nem bom nem mal, nem humano nem anjo, uma espécie de ex- anjo calejado pelas tentações da terra representa o próprio Tempo. Em uma ocasião ele explica para Cassiel: “Há muito tempo deve ter havido uma era de harmonia entre o céu e a terra. Alto era alto, baixo era baixo. Dentro era dentro e fora era fora. Mas agora temos o dinheiro. Agora tudo está desequilibrado. Eles dizem: tempo é dinheiro. Mas estão enganados. Tempo é a ausência do dinheiro.”

Há também uma misteriosa placa zeit ist kunst (tempo é arte) colada do lado de fora de um museu, onde Cassiel, vendo um quadro de Max Beckmann tem uma espécie de transe doloroso e cai no chão. Em contato com seu lado anjo, ele consegue voltar no tempo e presenciar outros anjos angustiados  e enfraquecidos durante uma exibição nazista denegrindo a arte moderna. Os nazistas chamavam as vanguardas artísticas, como os pintores modernos, surrealistas e dadaístas, de entartete Kunst (arte degenerativa) mostrando ao povo alemão através de exposições realizadas pelo partido que esse tipo de criação era uma manifestação louca, suja e subversiva. Pelo que essa cena mostra, apesar dos anjos não conseguem intervir na materialidade humana, o nazismo possuía uma espécie de energia doentia capaz de invadir a outra dimensão e afetar os anjos

Já no fim do filme, montados na moto de Flesti para salvar a família de Dammiel, Flesti decide compartilhar com Cassiel: “Vou explicar duas coisas. O tempo é curto. Essa é a primeira coisa. Para a fuinha, tempo é traiçoeiro. Para o heroi, tempo é heróico. Para a prostituta, tempo é somente outra peça. Se você for gentil, seu tempo será gentil. Se estiver com pressa, seu tempo voa.  O tempo é seu servo se você for o mestre dele. O tempo é um deus se você for seu cão. Nós somos os criadores do tempo e os assassinos do tempo. Tempo é valioso, essa é a segunda coisa. Você é o relógio, Cassiel.” Ok, parece que significa que o tempo se relaciona com a gente de forma subjetiva, depende das nossas motivações, modo de viver, etc. Também está claro que somos nós que decidimos mecanizar o tempo, organizar nossa sociedade pelo relógio, picar e separar uma determinada quantidade de tempo em 365 pedaços e chamar cada um de “dia”. Nós somos os criadores do tempo como conhecemos. Mas e a parte de Cassiel ser o relógio? Eu entendi que o Dafoe era o relógio. Se alguém tiver uma teoria, me diga.

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Quando a criança era uma criança

era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?

  (poema de Peter Handke)

“Asas do desejo” (ou como no alemão, “O céu sobre Berlim”) , do diretor Win Wanders, é em sua essência um ode à vida e ao humano.

A premissa é simples: Dois anjos, Cassiel (Otto Sander) e Dammiel (Bruno Ganz), acompanham as almas desesperadas da Berlim pós-guerra. Os protagonistas celestiais devem cuidar dos humanos, lendo seus pensamentos e observando seus sofrimentos. Dammiel não escapa de sua condição divina, ao se apaixonar pela trapezista Marion e não poder consumar seu desejo. Para poder tocá-la, ele deve deixar de ser anjo e tornar-se mortal.

Dammiel deixa sua condição divina e se torna mortal pelo aspecto mais característico do humano: o desejo. Desejo de amar, de tocar, mais especificamente. Ele cai no solo ao lado do muro de Berlim e descobre, com alegria, que sua cabeça está sangrando. Não deixa de ser uma forma de batismo. Dammiel então tem a possibilidade de sentir o frio, de tomar café quente, fumar um cigarro, esquentar suas mãos esfregando-as uma na outra, e outras coisas que para nós passa despercebido e parece não ter valor. Porém, a busca maior é encontrar Marion e experienciar o amor. No fim do filme, após dias de experiencias e com a certeza de ser realmente humano, Dammiel escreve  em algum tipo de carta: “Eu agora sei o que nenhum anjo sabe.”

O amor impossível não é o único elemento que seduz o público. Através dos dois anjos, vemos os pensamentos e reflexões fragmentadas dos berlinenses  compor uma narrativa variada e dinâmica. Os curiosos diálogos internos retratam o cotidiano, a condição humana e urbana de um mundo sob a sombra da guerra nuclear.

Numa reflexão sobre o divino e o efêmero, Wanders contrapõe  angústia do homens com o desejo de viver dos anjos. É interessante o dualismo entre os dois mundos apresentado no filme. O mundo dos anjos, estes impotentes, condenados a observar a história de forma passiva, incapazes de realmente ajudar os homens, e o nosso mundo, o mundo das angústias, crises existenciais, guerras, mas também o mundo dos prazeres, da esperança e do amor.  Em uma cena, Cassiel sofre por não poder salvar um suicida. A dualidade está presente também na estética do filme: enquanto os anjos enxergam em preto e branco, os homens vivem num mundo colorido, porém sem deixar de ser cinzento. Falando em estética, nesse quesito Asas do desejo é impecável, certamente um marco e uma obra de referência.

O filme vale a pena ser visto, no mínimo para saber de onde  veio o melodramático e idiotizado “Cidade dos anjos” (EUA, 1998). O diretor realizou uma sequência para Asas do desejo, chamada “Tão longe, tão perto” (In weiter Ferne, so nah!) de 1993. Já que gostei do primeiro, vou procurar o segundo e espero que seja tão bom quanto o anterior. Pelo menos é do mesmo diretor e tem os mesmos atores.

Achei um vídeo no youtube feito por um possível fã que mostra a força e a beleza das imagens do filme, retratando a atmosfera sombria da Berlim dividida pelo muro.

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Árvore da vida (Tree of Life), dirigido por Terrence Malick é um filme ambicioso, profundo mas relaxante, parado mas recompensador. Se alguém já viu “Além da linha vermelha” ou “O novo mundo”, já está preparado pra receber o novo filme de Malick.

Inicialmente, é bom dizer que a história de “Árvore da vida” é somente um gatilho para questões e experiências maiores. O diretor parte da morte de um dos três filhos, levantando o conflito familiar entre Pai (Brad Pitt), Mãe (Jessica Chastain) e o filho mais velho (Sean Penn) no período da infância. Jack (Hunter McCracken), o jovem Penn, não se dá bem com o pai autoritário e cresce no meio da briga ideológica entre Pai e Mãe. O pai representa o típico americano texano dos anos 50, querendo chegar ao topo do mundo e tentando fazer homens dos seus filhos. Com o propósito de educar os filhos, em uma cena Brad Pitt tenta ensina-los a se defenderem de brigas e pede para que eles batam em seu rosto. Os garotos, assustados e confusos, não conseguem acertar o pai. É engraçado como a imagem de Tyler Durden emerge de Pitt quando ele quase grita Hit me, hit me. Por se tratar da morte, de maldade e bondade, da vida de modo geral, surgem diversas questões sobre a bondade de Deus e até mesmo sua existência, sem pender nem pro lado dos teístas nem dos ateístas.

Agora vem o grande diferencial desta obra: vemos que os personagens não passam de uma micro parte do universo. Eles não são tão importantes como protagonistas de filmes normalmente são. Sean Penn mal chega a abrir a boca (achei um desperdício de ator) e Pitt perde território da projeção para a Natureza (com n maiúsculo bem marcado). Nos vemos conectados com os três personagens principais, pois somos homens também e é isso que todos atores do filme representam: a humanidade.O nascimento de Jack, seu crescimento, sua relação com seus irmãos e a natureza é acompanhada por um espetáculo de imagens retratando o nascimento e crescimento do universo.

Começa com o big bang, logo galáxias e astros se formam em meio ao fogo, brilhos e gases, como numa grande placenta cósmica. Então surge a vida na Terra, a evolução dos animais e a extinção dos dinossauros com a queda de um grande meteoro. Só uma observação: parece que o casamento entre música clássica e o cosmos ainda está valendo; as cenas do universo com o uso da Lacrimosa, de Zbigniew Preisner, são uma clara homenagem ao 2001 de Kubrick.  O paralelo entre o desenvolvimento dos personagens e o desenvolvimento da natureza é a maneira mais bonita de nos lembrar que somos natureza e não algo superior à ela. É aí que o filme me atingiu de maneira mais forte. Num típico pensamento Newtoniano e Baconiano, vemos a humanidade como algo inabalável e dono do resto do universo, mas estamos mais pra fungos passageiros parasitando esta grande rocha que vaga pelo infinito. Assim como os dinossauros ou a própria Terra, também vamos todos morrer. Com um caldo existencialista, Malick teve a força de fazer um religare. 

Por ter sido realizado com um cuidado visual extra e dar mais espaço para as ações dos membros da família texana do que para diálogos, o filme possui uma carga simbólica aberta a interpretações. Uma delas é a relação mãe e filho, e não consegui evitar a associação com o complexo de Édipo (o desejo de morte do pai e a atração pela mãe).

Antes de ir ao cinema, já tinha lido que o filme segue a “lentidão” de “Além da linha vermelha” e por isso fui preparado pra relaxar na poltrona e aproveitar a qualidade de som e da imagem que a sala de cinema proporciona para tentar extrair o que de mais artístico o filme tem. E tem bastante. Já suspeitava que o roteiro não teria novidades ou grandes atrativos, mas se funde ao visual e serve para algo maior, como havia dito anteriormente. Imagino que por desconhecerem o estilo de Terrence Malick ou terem se deixado levar pelos nomes Brad Pitt e Sean Penn no poster, vi muita gente saindo no meio da sessão e uma mulher até xingou o filme quando as luzes acenderam. Vendo que quase todo mundo odiou o filme, me considerei sortudo por ter gostado dessa experiência visual-auditiva e do recado memento mori que ela trouxe.

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