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Archive for julho \15\UTC 2013

sherlock-_-a-study-in-scarletAlém de ter lido “The dharma bums” nestas férias, li também “Um estudo em vermelho” de Arthur Conan Doyle, o primeiro caso de Sherlock Holmes. Só conhecia este famoso personagem de ouvidos e com as duas adaptações cinematográficas de Guy Ritchie, Robert Downey Junior e Jude Law. Alias, preferi ignorar a caracterização que Conan Doyle faz de seus personagens para ficar com Downey Jr e Jude Law como Holmes e Watson, respectivamente. É mais divertido ficar imaginando eles durante a leitura do livro.

A obra original de Conan Doyle sobre Holmes é vasta, totalizando em 4 romances e 56 contos. Após “Um estudo em vermelho” seguem-se “O signo dos quatro”, “O cão dos Baskervilles” e “O vale do terror”. Os contos estão reunidos em diversos livros, como “As aventuras de Sherlock Holmes” e “O último adeus de Sherlock Holmes”. Este primeiro romance do cânone apresenta um caso de aparente homicídio, em que a vítima não apresenta cortes ou ferimentos, sendo encontrada esticada no chão de um cômodo vazio junto com a palavra RACHE na parece, escrita com sangue, e uma aliança junto ao corpo. Tudo desenvolve-se a partir daí, levando a trama até Salt Lake City, nos EUA, e envolvendo a comunidade mórmon. Nunca tive medo dos mórmons, até ler este livro.

Acredito que esse livro é bom para quase todo mundo, desde aqueles que estão iniciando agora e não sabem com qual bom título começar, para os mais relaxados, para os mais “cultos”, para os amantes do gênero e para quem nunca tinha lido um livro policial. Leio muito pouco deste gênero, e não sei por quê, mas tinha a impressão que a linguagem iria ser mais travada por uma estrutura antiga e por joguinhos bestas de “quem matou quem”, “quem será o culpado”, etc. Mas não. A narração do doutor Watson não se apega aos extremos detalhes do crime (somente na conclusão) e não há uma atmosfera artificial e forçada para criar suspense. O livro tem uma narrativa bastante rápida, com ganchos ao fim de cada capítulo e linguagem fácil.

Doyle é bastante competente e toda a fama de Sherlock Holmes não é a toa, o livro é realmente bom e muito inteligente. Vale a pena por mostrar como Sherlock Holmes e o doutor Watson se conheceram em Londres, pela descrição das habilidades e vícios dos dois companheiros e pelo fascínio que o temperamento e a inteligência do detetive exerce em Watson e, consequentemente, em nós leitores.

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dharma bums
A geração beat, formada principalmente por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Neal Cassady e Gary Snyder, foi um grupo de escritores norte-americanos desencantados com a América do pós-segunda guerra mundial. O grupo teve maior fama nos anos 50, sendo que a vida e obra de seus membros foram permeadas pela negação aos conceitos instituídos na sociedade, pelo uso de drogas, por um modo novo de se fazer escrita e de viver, pegando a estrada ou a trilha, praticando a sexualidade por vias alternativas, adotando religiões orientais e tendo uma postura antimaterialista perante a vida. Muitos consideram os autores beatniks como precursores do movimento hippie, e o livro The dharma bums de Jack Kerouac sustenta muito bem esta afirmação.
The dharma bums, trazido aqui no Brasil como Os vagabundos iluminados, foi publicado em 1958 e baseia-se no período em que Kerouac (Ray Smith, no livro) estava interessado pelo budismo e pelo montanhismo, atividades introduzidas por seu amigo Gary Snyder (Japhy Ryder, no livro). Não há muito que contar como sinopse deste livro: Ray Smith está buscando se aperfeiçoar em seu budismo e ao conhecer Japhy, os dois passam a ser bons amigos e compartilham sonhos e festanças, vivendo de maneira simples aproveitando as estradas e a natureza oferecem. Passado principalmente em São Francisco e redondezas da Califórnia, o livro é embalado por viagens de carona, caminhadas, subidas em montanhas e invasão de trens cargueiros, uma vez que os personagens do livro não se apegam a moradias fixas, vivem com pouco dinheiro e valorizam muito a experiência direta com o mundo. O termo beat também é entendido como beaten down (quebrado ou cansado), fazendo referência ao modo simples e barato de viver de Kerouac, assim como o ideal de budismo que o personagem/autor busca, uma espiritualidade calma desapegada das coisas materiais. Além das viagens e montanhismo praticado com Japhy, há cenas de yab-yum, uma prática sexual presente em algumas religiões orientais, de bebedeiras, de festas gigantescas, de solidão e de contemplação.
Em uma certa parte do livro, enquanto Japhy e Ray estão em uma roda de amigos conversando, Japhy descreve uma imagem que é a essência de The dharma bums: um andarilho esfarrapado e cansado, carregando uma mochila nas costas, anda por uma rua de um subúrbio americano, onde há a mesma luz azulada saindo das janelas de todas as salas de televisão. O viajante atravessa a rua e é o único que não é escravo das telas, pois pode pensar diferente enquanto dentro daquelas casinhas, todos pensam exatamente a mesma coisa. Esta imagem capta bem o que aparece no livro como “revolução da mochila” ou rucksack revolution, o desejo de Japhy que toda a juventude deveria largar seu conforto e suas mentes pequenas, pegar uma mochila e percorrer as estradas e a natureza do continente. O que os vagabundos de dharma colocam em cheque é o sistema produzir-consumir-produzir-consumir que esgota e tira a vitalidade das pessoas, concepção resgatada pelos hippies posteriormente.
Um livro bastante inspirador, onde Kerouac relata de um modo lírico e objetivo suas viagens, seus momentos de festa e poesia e as andanças em busca da iluminação. Não sei dizer se os princípios budistas apresentados no livro são fieis aos ensinamentos do budismo original ou de alguma corrente variante deste, mas já li que o budismo aprendido por Kerouac e por muitos outros ocidentais sofreu deturpações e reinterpretações do budismo oriental, o que ocorre frequentemente com quase todas religiões, ideologias e filosofias. Em fim, achei mais interessante o que Kerouac tem a dizer sobre seus amigos e suas vivencias do que sua busca espiritual. Um livro menor, as vezes obscurecido por On the road, o clássico de Kerouac, mas ainda tem o mesmo potencial de abalar nossa rotina e implantar o desejo de sair por aí, se enfiando no mundo e buscando um jeito de viver mais livre, mais louco e mais autêntico. A maneira de Kerouac contar a história nos provoca uma nostalgia de uma não-experiência, um tempo não vivido por nossa geração, onde as estradas eram menos perigosas e repletas de esperanças. Mesmo assim, com as ruas de hoje mais assustadoras e apocalípticas, Kerouac nos dá um sopro de vida.

“Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte “lunática” de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana do México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso (…)”

Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os mais novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana.  (Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac)

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