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The Prisoner

The prisoner (1967-1968) é uma série britânica inovadora, revolucionária, provocadora, divertida e, em última análise, surrealista. Pelo que observei na internet, a série é frequentemente lembrada pelos diálogos iniciais da abertura de quase todos episódios. Number Six (Patrick McGoohan) questiona um Number Two (atores variados): Where am I?; what do you want?; whose side are you on? E a mais famosa frase da série, quando Number Six grita lutando contra o céu da Vila:  I am not a number! I am a free man! Como dá para perceber, é uma série sobre disputa por informações, sobre descobrir quem é seu inimigo e acima de tudo, a não se conformar.

A série produzida em conjunto por McGoohan e George Markstein conta com somente 17 episódios, um fato bastante positivo para aqueles que não suportam ver séries gigantescas de 19 mil temporadas. A trama centra-se em um ex-agente (o Six) da inteligência britânica que pede demissão e logo após isso é sequestrado em sua casa. O agente acorda em uma pequena comunidade confortável e alegre, mas também sinistra chamada A Vila, governada e vigiada por um grupo de experts ávidos por corromperem todos seus prisioneiros e roubarem seus segredos. A serviço de um Number One invisível, os diversos Number Two utilizam métodos para tentarem descobrir o motivo da demissão de Patrick McGoohan, desde uso de drogas alucinógenas e roubo de identidade até controle dos sonhos e coerção social. Encarnando um verdadeiro rebelde no melhor estilo fighting the system, Number Six desafia as autoridades e tenta fugir diversas vezes. Além de ganhar nossa simpatia com seu humor.

O valor de The prisoner vai além do seu visual dos anos 60, que é bem legal, e da trama aparentemente simples. A série nos faz pensar sobre o papel da educação na sociedade, os meios de comunicação em massa, a conformidade, além de brincar com a questão de quem são os vilões e quem são os heróis. Outro tema recorrente na série que dialoga com a questão da conformidade é a dicotomia entre individualismo e coletivismo. Além da importância desses temas, Patrick McGoohan quis criar um show que questionasse mais do que respondesse, algo que fugisse das mesmas histórias de espionagem. O Number Six não pega nenhuma Bond girl, as respostas não são mastigadas para os telespectadores e vale dizer que ao longo da série a coisa vai ficando mais pesada e surreal. Ao fim da série, com o icônico episódio Fall Out, o alvoroço foi tamanho que McGoohan declarou que a série teve o propósito de ser diferente, de não ser tomada exatamente ao pé da letra e sim de ser uma alegoria de nossa sociedade.

Foi impossível nossa cultura fugir da influência de The Prisoner. Há uma paródia em um episódio dos Simpsons, no qual o Number Six e A Vila aparecem,  além de filmes claramente inspirados pela série, como O Show de Truman (1998). Quem conhece alguns quadrinhos da Vertigo notará a influencia que The Prisoner teve para cabeças como a de Alan Moore e de Grant Morrison. V de Vingança e Os Invisíveis trazem traços notáveis herdadas da série de McGoohan. E não é por menos. Confesso que fiquei confuso com o fim, não sabia se gostei ou não. Depois de um tempo de digestão concluí que a série é realmente muito boa. Uma ótima história sobre vigilancia, controle e liberdade. É uma daquelas coisas culturais que exalam criatividade e também diversão, uma obra que deveria ser assimilada pela nossa geração e pelas que estão por vir.

Confiram abaixo uma timeline mostrando como The Prisoner influenciou nossa cultura e vejam a abertura da série:

para visualizar a imagem maior: https://i0.wp.com/www-images.theonering.org/torwp/wp-content/uploads/2009/11/Prisoner_Timeline.jpg

Para ver a imagem ampliada vão ao link abaixo

Be seeing you

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V for Vendetta: paperback

Em novembro de 2012 comprei o meu há muito desejado “V for Vendetta”, a espetacular graphic novel da DC comics criada por Alan Moore e David Lloyd em 1982. Li “V de Vingança” após ver a versão cinematográfica. Era final de 2005 ou meio de 2006, estava na oitava ou sétima série. Gostei bastante do filme e achei muito empolgante, principalmente com a música dos Rolling Stones no final.  Mas, como já conhecia a capacidade foda do Moore e seu talento para contar histórias com a leitura de Watchmen, tinha certeza que a versão em quadrinhos seria bem  melhor que a película.

E acertei em cheio. A HQ é dez vezes melhor.

Originalmente publicada na revista Warrior, serialmente e em preto e branco, a história só teve sua publicação finalizada em 1988, pela DC. Não pretendo comentar sobre os bastidores dessa HQ neste post, nem dizer sobre a trama (acho que com a popularidade do filme de 2005, a trama dispensa apresentação). Só quero dar uma dica, uma amostra do produto para os potenciais compradores, coisa que não encontrei na internet enquanto decidia se valia a pena comprar em inglês pela bookdepository.com ou se ficava com edição em português da Panini. Talvez, em um futuro próximo, quando acabar de fazer minha primeira de muitas releituras, faço uma resenha.

Aos curiosos e buscadores de fotos da edição paperback de “V for Vendetta”, publicado pela DC Comics, aqui está:

Papel poroso mas de boa qualidade.

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A lombada.

V for vendetta paperback

A capa mole e a encadernação de cola, não costurada. Apesar das paginas serem coladas, o trabalho foi bem feito e elas parecem resistentes.

England prevails.

Os búfalos anões do dpto. de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Os números

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 7.100 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 12 anos para ter este tanto de visitação.

Em 2012 foram publicados 8 novos artigos, aumentando o arquivo total para 34 artigos. Foram carregadas 47 imagens, ocupando um total de 11 MB. São cerca de 4 imagens por mês.

O dia com mais tráfego foi 6 de novembro, com 57visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Mr. Nobody (2009).

Atrações em 2012

Estes são os artigos mais visitados em 2012. Pode também consultar os artigos mais visitados na sua página de estatísticas.

Alguns dos seus artigos mais populares foram escritos antes de 2012. A sua escrita tem influência! Considere escrever mais sobre esses tópicos.

Como o encontraram?

babelA literatura realmente serve para alguma coisa? Por que passo tanto tempo pesquisando sobre autores, sobre livros e lendo-os? Seria todo esse tempo gasto com literatura tempo perdido? Não sei, não há resposta certa, mas espero sim que a literatura valha nossa dedicação.

É fato que muitos leem livros para se distraírem da realidade, mas isso não é algo necessariamente ruim. Em momentos de solidão, conseguia me sentir bem se um livro estivesse por perto. Toda forma de entretenimento enche nossos espaços vazios, compensa nossos amigos ausentes e torna nossas esperas mais toleráveis. Afinal, sempre estamos enfiando entretenimento em nossas vidas, então, porque não fazer isso com literatura de qualidade?

Conversando sobre isso com a Mari, ela disse que gosta de ler porque a literatura possibilita um contato com outras pessoas, como o escritor, leitores de todo o mundo e porque não com pessoas fictícias: os personagens. O livro também permite o contato entre o leitor e outras culturas e tradições. Por exemplo, a Mari está acabando o “Assassinato e outras histórias” de Anton Tchekhov e gostou da maneira como o autor representa o cotidiano na Russia. De forma bastante simples, podemos conhecer personagens que vivem em pequenas cidades que nunca ouviríamos falar. Além disso, podemos refletir sobre pobreza e o esquecimento desses lugares, assim como os vícios e as dificuldades específicas das pessoas em condições decadentes.

Em outras palavras, os livros de literatura formam um meio de comunicação artístico que atravessa os séculos e os continentes. Dante conseguiu transmitiu a mentalidade e a alma do catolicismo através da “Divina comédia”. Homero eternizou a subjetividade, as lendas, os deuses e o mundo da Grécia antiga. Para mim, tudo isso é tão importante como alimento.

Acredito que a literatura representa algo muito importante para a humanidade: ela representa a capacidade do homem de imaginar e criar.

Diferente de outras bestas da natureza, o homem pode se modificar e modificar seu mundo. Isso implica em criar, pensar, registrar e, entre outras coisas, imaginar. Pensem na capacidade intelectual demonstradas na obra de Julio Verne, de H. G. Wells e em muitos outros livros de ficção científica. A literatura representa a transcendência da necessidade para o campo da liberdade, um campo de novidade e de esperanças. O sociólogo Zygmunt Bauman disse certa vez que a literatura proporciona uma forma de conhecer o mundo diferente do texto acadêmico:

Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstoi, Balzac, Dickens, Dostoievski, Kafka ou Thomas More muito mais insight sobre a substância das experiências humanas do que de centenas de relatórios de pesquisa sociológica. Acima de tudo, aprendi a não perguntar de onde uma determinada idéia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas à sua condição – assunto tanto da sociologia como das belles-lettres […] O que aprendi com Borges? Acima de tudo, aprendi sobre os limites de certas ilusões humanas: sobre a futilidade de sonhos de precisão total, de exatidão absoluta, de conhecimento completo, de informação exaustiva sobre tudo; enfim, sobre as ambições humanas que, no final, se revelam ilusórias e nos mostram impotentes.

Entretanto, algo que me deixa muito puto é a supervalorização da leitura em si. Há pessoas que se acham melhores do que as outras só por gostarem de ler, e há pessoas que reforçam esse tipo de coisa. É no mínimo preocupante se você releu quatro vezes o Fifty shades of shit e se acha grande coisa por causa disso. Ler não irá garantir que alguém se torne uma pessoa melhor ou mais inteligente. Depende do livro e de como você lê. Se a leitura é rápida, superficial e meramente por obrigação, a experiencia será uma merda. Se o livro é ruim, pobre, cheio de falhas e escrito de maneira infantil, eu vejo o esforço como tempo perdido. Não gosto do papo de dizer qual livro é bom e qual não é, mas há livros e livros, e como Rafael Galvão diz, começar com livros bobos não garante que acabe lendo os grandes livros: “Harry Potter não leva necessariamente a James Joyce”.

Certos livros tem a capacidade de expandir nossas mentes, de nos fazer pensar coisas impensáveis, de concebermos realidades que não iriamos ser capazes de imaginar sem a ajuda dos grandes escritores. Baseando na premissa de que meus argumentos são mais verdadeiros se partirem de minha experiência própria, livre de valores absolutos, listo aqui cinco romances que foram importantes para a formação do meu hábito de ler. Importantes pois cada um deles me deixou fascinado e foi capaz de provocar o período que eu gosto tanto de reflexão pós-livro. Cada um deles me deu mais vontade de conhecer outros autores, outros livros e ler cada vez mais. Enquanto eu os lia, pude sentir medo, agonia, curiosidade, alívio e felicidade. Certo, sei que a maioria dos livros dessa seleção é trágica, mas mesmo assim são altamente recomendáveis por serem estimulantes e emocionantes, sem falar que conseguem capturar diferentes facetas de nossa realidade. Para enfatizar o toque biográfico desta lista, a ordem respeita a sequência de leitura.

5 livros que me transformaram em um leitor interessado:

kafka-metamorfoseA metamorfose: “Certa manhã, após um sono conturbado, Gregor Samsa acordou e viu-se em sua cama transforado num inseto monstruoso.” Acho que é o primeiro livro marcante que eu li. Lembro de devorar o clássico de Kafka em dois dias. É um livro incrível sobre um cara que vira uma barata e os consequentes sentimentos dos familiares, principalmente ao perceberem que perderam a pessoa que levava o pão de cada dia para casa.

1984: li o famoso romance distópico de George Orwell por causa de The invisibles, série em quadrinhos de Grant Morrison que utiliza inúmeras referências boas para caralho para contar uma história violenta (é série da Vertigo) sobre a díade liberdade versus controle e a natureza da realidade. 1984 retrata a vida de Winston Smith num futuro onde o grande Estado totalitário chamado Oceania reprime os trabalhadores, manipula a propaganda, registros históricos, a língua e a literatura para controlar as pessoas e mantém uma guerra eterna contra outras duas grandes potências. Winston dedica-se à tarefa de perpetuar a propaganda do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura, mas acaba se desiludindo e assim começa uma rebelião contra o sistema. É aqui que aparecem os famosos termos como “Big brother”, “duplipensar” e “novilíngua”.

Farenheit 451: segue a mesma lógica distópica de “1984”, sobre uma sociedade cuja seus bombeiros queimam livros para garantir a submissão da população. Montag, o personagem principal, é um dos bombeiros que acaba descobrindo a potência e a importância dos livros e se rebela contra o sistema. Li logo após o “1984” e, igual a esse, “Farenheit 451” causa revolta e mostra como o conhecimento é importante para a emancipação humana.

As intermitências da morte: li em um blog que os livros de José Saramago podem ser categorizados em duas classes: os muito bons e os não tão bons assim. O autor tinha colocado “As intermitências da morte” na segunda categoria, mas, como ele mesmo disse, um “Saramago não tão bom” já é melhor do que muitos livros por aí. Eu não sei, não posso dizer nada por que, vergonhosamente, este foi o único livro dele que li. Mas posso dizer que gostei bastante, é uma história que oscila entre o cômico e o caótico e acaba em romance. O livro mostra os dias em que a Morte resolveu fazer greve em determinado país não especificado. Isso afeta os coveiros, os hospitais, a Igreja, os asilos, a previdência social…tudo.  No começo, era uma beleza, aí as coisas começam a se mostrar problemáticas, pessoas doentes não morrem, a Igreja perde o sentido e profissionais relacionados à morte perdem o emprego. Claro que isso é só o começo. Como o título diz, a Morte resolve voltar à atividade mas uma nova greve sempre é possível. Saramago, com seu jeito sagaz, brinca com um tabu e mostra como a morte faz parte da vida. Uma parte muito importante, por sinal, e que pode ser positiva.

HemingwayAdeus às armas: Ernest Hemingway é direto, durão, violento e muito foda. Esse livro não podia ser diferente, sua experiência na Primeira Guerra mundial é causa frieza e choque. Achei esse livro muito bom, pois além de ter um olhar realista anti-guerra, me conectei com personagem principal da história (o alter-ego do Hemingway). É fácil sentir agonia e dor quando ele sofre, sentir alívio quando ele consegue escapar da morte e uma breve alegria quando ele encontra sua enfermeira. É ágil de ler, é profundo, conciso como sempre e já é um clássico americano.

– Preferia não fazê-lo? – repeti, como um eco, levantando-me muito nervoso e atravessando a sala em grandes passadas.

– O que está querendo dizer com isso? Por acaso ficou louco? Quero que me ajude a conferir esta página. Tome aqui.

Estendi-lhe o documento. Mas Bartleby insistiu:

– Preferia não fazê-lo.

É este o espírito do consagrado conto de Herman Melville publicado pela primeira vez em 1853. É um livro bem curto, de umas 70 páginas, bem legal de se ler. E só para avisar, não vou soltar spoilers nesse post.

“Bartleby, o escrituário” (Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall Street) retrata os estranhos hábitos do jovem escriturário do título. Ficamos sabendo sobre Bartleby através do narrador da história, um advogado experiente de Nova York que contrata Bartleby para trabalhar junto com outros dois escreventes Nippers e Turkey e o office boy Ginger Nut. Nippers é um cara estourado e Turkey costuma encher a cara, mas os dois se compensam pois à tarde Nippers é mais calmo e Turkey está sempre sóbrio pelas manhãs.

No começo, Bartleby faz suas obrigações, produzindo cópias de documentos de alta qualidade, mas logo em seguida prefere não fazer mais nada. Todos no escritório ficam malucos, como é mostrado no trecho acima, o que faz com que o narrador busque conhecer melhor seu novo empregado, seu passado e qual a causa para esse comportamento tão bizarro. Ele tenta de tudo para compreender melhor quem Bartleby é, mas tudo o que consegue ao fazer qualquer tipo de pergunta é: “preferia não fazê-lo”. O narrador começa a ter um sentimento complexo em relação ao jovem escrivão, uma mistura de raiva por ele se recusar a tudo sem motivo aparente, intimidação pela sua calma e misteriosidade  e compaixão por ser um rapaz solitário, pálido e calmo.

Alguns dias se passam e o narrador descobre em um domingo antes de ir à igreja, quando a Wall Street está totalmente deserta, que Bartleby está morando no escritório. Isso incomoda o velho advogado de um jeito inexplicável, o que irá aumentar o mistério da trama, e também a tensão entre os dois.

O conto de Melville é amplamente conhecido e influente hoje em dia, apesar de não ter sido reconhecido na época. Já vi muitos artigos acadêmicos relacionando a trama de Bartleby com assuntos de psicologia, existencialismo e filosofia. Em um congresso sobre fenomenologia e existencialismo, lembro de uma palestrante utilizar o conto para ilustrar sua fala sobre o vazio existencial e o fechamento do horizonte do ser. E, após ler o livro, parece realmente ser uma história sobre claustrofobia, alienação e total solidão. O modo como o escritório é descrito, com poucas janelas, sendo que haviam muros altos bastante próximos que bloqueavam o sol, já serve como indicador do confinamento sofrido pelos personagens. É comum achar na internet análises dizendo que Bartleby é uma pessoa totalmente alienada de humanidade e de propósitos, como se recusa-se a fazer parte da sociedade. Como o grande Jorge Luis Borges aponta na introdução da edição que possuo do livro, “Bartleby, o escrituário” é um precursor do estilo de Franz Kafka, compartilhando o senso de absurdo, de mistério, de algo deste nosso mundo que dá vontade de gritar e que nos perturba. Isso é verdade, pois o peso da burocracia, a maquinização do homem e a falta de sentido nas atividades humanas podem ser encontrados no conto de Melville.

Ao acabar de ler o livro, não sabia direito o que pensar. Com certeza eu gostei, mas a digestão não é facil. O personagem é tão bizarro que a gente fica matutando sobre ele por bastante tempo; você pode não compreender direito as coisas mas mesmo assim a história te pega. Enfim, achei um livro muito interessante e misterioso, é um clássico que sempre tive curiosidade de ler, sem falar no estilo narrativo bastante prazeroso do autor. Me deu vontade de conhecer o épico sobre baleia, Moby Dick.

An Alien Heat

An alien heat é engraçado, muito bem escrito e aparentemente desconhecido. Pouco se acha sobre ele em páginas brasileiras e até mesmo em inglês. Após me satisfazer muito com a leitura e ver que não há muitas resenhas ou comentários disponíveis na internet sobre essa obra de Moorcock, resolvi voltar a escrever para o blog.

Achei esse livro na seção de literatura em língua inglesa em um sebo da minha cidade. Capa dura verde, velho e meio desgastado, custando 5 reais. O fato de Michael Moorcock ser uma influência para Alan Moore foi definitivo para eu me interessar pelo livro de capa dura verde e, por sorte, eu já estava levando mais dois livros e sabia que a mulher do sebo iria me dar um desconto. No fim, o livro saiu de graça. Ele ficou parado na minha estante por uns 7 meses, até que um dia eu resolvi dar uma olhada e,  quando percebi, já estava no capítulo dois.

Comecemos com os dados básicos: An alien heat é o primeiro livro da trilogia The dancers at the end of time, do já mencionado escritor inglês Michael Moorcock. O pano de fundo da trilogia é a morte inexorável do universo que conhecemos, assim como a vida decadente, livre e bizarra dos humanos em um futuro longínquo. Nesse estágio da humanidade, o conhecimento e tecnologia chegaram ao ponto de deixar a morte e o nascimento para o passado, sendo o protagonista da trama, Jherek Carnelian, o ultimo homem nascido. Os habitantes do fim dos tempos vivem como semi-deuses, controlando a cor do céu e do oceano, criando banquetes, festas e cidades inteiras do nada, fazendo de tudo para afastar o tédio da vida eterna. É curioso (e não deixa de ser uma crítica sutil) o fato de eles utilizarem todo o conhecimento tecnológico para mudar a materialidade, mas sem ter uma clara noção de como tal tecnologia funcionam: só querem se divertir. Pode-se trocar de sexo à vontade e espontaneamente, e até mesmo virar um gorila se você quiser. Pessoas do passado (como muitos de nós) iriam ver a sociedade do futuro como imoral, já que Jherek faz sexo com a própria mãe no primeiro capítulo, faz sexo com seu amigo e há também uma prostituta chamada Everlasting Concubine que adora transar com todos.

Mas isso tudo fica de background e introdução para o que realmente acontece em An alien heat. Além de ser uma ficção científica diferente das fc de robôs, espaços e aliens, The dancers at the end of time é sobretudo uma história de amor. E sobre viagem no tempo. Como Moorcock diz no prólogo do primeiro livro, “o que segue é a história de Jherek Carnelian, que não sabia o significado da moralidade, e Mrs Amelia Underwood, que sabia tudo sobre isso”. Como é de nossa condição buscar sempre algo para fazer, Jherek, além de ser fissurado por artefatos e história da Inglaterra do século XIX, decide investigar o sentido da palavra “virtude”. Isso é compreensível, uma vez que no futuro palavras abstratas de cunho moral ou de boa conduta, como virtude, perderam completamente seu sentido. E a importância no livro de Amelia Underwood, uma moça abduzida coincidentemente do século XIX e mandada para o fim dos tempos, é precisamente mostrar o enorme choque de cultura causado por milênios de anos. Jherek, encantado com a beleza da moça e por se tratar de uma habitante da Inglaterra vitoriana, decide apaixonar-se por ela. A partir de então, muita coisa acontece com Jehrek Carnelian ao tentar conquistar o amor de sua adorada. Em um determinado momento, os dois voltam para o século XIX e para a sorte do leitor, muita merda acontece.  Jherek fica totalmente deslocado, tentando compreender como as pessoas do passado se comportam, sem saber absolutamente nada sobre valores e hábitos comuns para nós.

Esse é o enredo principal de An alien heat. Não seria bom o suficiente para a história se sustentar se não fosse a ótima escrita e o humor refinado do autor inglês. Em meio a uma linguagem envolvente e culta, dando agilidade ao romance, há tiradas sobre moralidade, sobre nossa condição humana e é claro, sobre o amor. É muito interessante ver os costumes e a moral a partir da experiência de Jeherk. No começo, achei a situação dos habitantes do fim dos tempos um tanto estranha demais, o que causou um distanciamento entre eu e os personagens, mas logo a leitura ficou muito melhor e Jehrek e seus amigos tornaram-se muito simpáticos. É isso que marca o livro, a simpatia e um divertimento lighthearted (uma história que deixa seu “coração leve”, deixa você alegre).

Uma coisa que chamou minha atenção em uma resenha que li sobre a trilogia é que The dancers at the end of time, além de ser uma história de amor, pode ser vista como uma história sobre deixar de pertencer ao seu lugar de origem, não pertencer à uma época ou à uma sociedade. Aliás, o título do primeiro livro pode ser traduzido como “um calor estrangeiro”, mostrando como a paixão está ausente, no caso do livro, em uma sociedade futura.

Sei que se eu quiser passar um tempo quieto, relaxar e dar umas risadas, irei reler esse livro enquanto não possuir os outros dois, The hollow lands e The end of all songs.

Michael Moorcock à esquerda e à direita Alan Moore, o mago barbudo muito foda dos quadrinhos.

Este livro que acabo de devorar, deveria ter o seguinte aviso antes da história começar: Os personagens aqui presentes podem causar depressão severa.

“A hora da estrela”, somente um dos treze títulos deste romance, é último publicado em vida da autora, em 1977. Seguindo uma narrativa que continua moderna, o livro não tem divisão em capítulos, é dinâmico, brutal e reflexivo. Aqui encontramos pessoas miseráveis, feias e sem (auto)conhecimento. Vemos a incapacidade de ascensão social, o vazio e a solidão. Nas palavras de Lispector: é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima. Ou como ela define liricamente no meio do romance, é sobre parafusos dispensáveis numa sociedade técnica.

A miserável central da história é Macabéa, uma alagoana órfã que foi morar no Rio de Janeiro. Outro miserável é o narrador, pois na verdade “A hora da estrela” é uma metanarrativa. O romance se desenvolve a medida que Rodrigo S. M., escritor alter-ego de Clarice, arranca a história da nordestina de suas tripas enquanto espera a morte.

Macabéa simplesmente me deu agonia. Seu passado é lamentável e seu futuro mais ainda. Após perder seus pais, é criada pela sua única parente, uma tia beata e violenta. Rodrigo escreve que Macabéa só virou mulher tardiamente pois até em capim vagabundo há desejo de sol. É descrita como uma cachorra vadia, que só vive por viver, sem conhecimento de si mesmo. É passiva a ponto de irritar, magra, doente e totalmente perdida. Seu rápido namoro com o também nordestino Olímpico é o inferno que qualquer casal pode imaginar: O homem humilha Macabéa sendo grosso e punitivo; Macabéa é totalmente sem sal, como não podia ser diferente, e apesar da garota pensar que Olímpico lhe trará ascensão na vida, um não tem nada a oferecer ao outro.

Uma vez Olímpico levou-a ao zoológico e ela se mijou toda.

Mas continuei lendo e adorando, e as desgraças só aumentam. A história da nordestina é interrompida a todo momento pelos devaneios e observações de Rodrigo. Na verdade, ele nos enrola bastante no começo.

O climax é o encontro da moça com a cartomante, cena baseada na própria experiencia de Lispector. Após a cartomante contar sobre seus bons tempos de prostituta, ela ergue o véu que cobria o passado da própria Macabéa, percebendo então que viveu tempos infelizes. Mas a cartomante lhe enche de esperanças ao prever que um gringo louro irá entrar em sua vida. Macabéa vai para a rua, observa o crepúsculo e dá um passo fora da calçada… O destino se cumpre e chega a hora da estrela.

É a primeira obra de Lispector que tive o prazer de ler. Já li na internet que Clarice Lispector é o Kafka latino-americano, ou a nossa Virginia Woolf. Sou cético quanto comparações desse tipo e também nunca li nada da Woolf até hoje, mas “A hora da estrela” me atraiu imensamente.

Aliás, não entendo porque há tantos resumos desse romance (que é tão curto como um conto) na internet. Dedica-se uma tarde, duas se for preciso, só para ler o livro que será muito recompensador. A beleza e a graça do estilo está no livro, não nas páginas da web. Então, se você veio parar aqui buscando um resumo junto com uma análise quadradinha para fazer uma prova, vá ler o livro, meu caro.