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Posts Tagged ‘Autoritarismo’

A Onda (2008) é um filme passado na alemanha que retrata uma história real. Trata-se de uma experiência realizada pelo professor Rainer Wenger com seus alunos de idade colegial (16~17 anos, creio). O professor é responsável pelas disciplinas de educação física e ciência política (acho que um equivalente a ciências sociais aqui) e recebe a tarefa de ensinar de ultima hora a matéria de autocracia, ou seja, passar para os estudantes como seria um governo autocrata. Ele resolve ensinar na prática, e começa realizar uma dinâmica de grupo baseada na disciplina, ordem, e discurso de autoridade. Esta experiência, no entanto, perde o controle e traz consequências desastrosas para o professor, para os alunos, e todas as outras pessoas envolvidas com o grupo.

O filme é uma metáfora do processo de surgimento do nazi-fascismo que tomou a Alemanha e a Itália na década de 1930 e trouxe consequências tão cruéis na história da humanidade. O interessante é notar que, infelizmente, este discurso fascista não morreu completamente, na verdade ele esta mascarado, e pior ainda, de muitas maneiras. Quando analisamos a essência desses discursos, e é isso que o filme propõe ao telespectador, vemos que podemos incluir nessa categoria, fanaticos religiosos, sejam eles cristãos, muçulmanos, etc., conservadores de extrema direita (posso usar como exemplo certos grupos dos EUA), skinheads que estão localizados em diversas partes do mundo, etc. Por isso é valido dizer que a discussão sobre intolerância, atutoritarismo, ideologia, dogmatismo, em certos contextos é muito atual  necessária.

O filme também retrata um aspecto muito peculiar da nossa sociedade. Logo no início dele há um dialogo entre dois estudantes que dizem que hoje em dia os jovens não tem mais pelo que lutar. Há uma ausência de valores, e muitas vezes os jovens se encontram perdidos e vazios no mundo, extremamente vulneráveis para ideologias como essas, que envolvem o indivíduo, dão a ele significância tranformando-o num indivíduo inserido num grupo, tornando-o forte e especial. No momento do filme que os alunos começam a marchar mostra muito bem isso. Alguns ali sentiram pela primeira vez nas suas vidas, a integração a um grupo, que não se limita a suas “turminhas” de amigos, mas que vão além de suas vidas. A Falta de orientação e valores vividas pelos jovens do filme e por quase todos os jovens atualmente permitem o levantamento de um outro raciocínio. Quais são exatamente os limites que separam um movimento fundado em argumento e numa ideologia racional e democratica, e o movimento autoritário, intolerante, irracional e muitas vezes violento? Em outras palavras, qual a separação entre o racional e o irracional?

Esta discussão é muito importante, pois muitas vezes esses limites não são fáceis de ver. Observamos na história, principalmente no século passado, a ascensão de regimes que levaram longe demais seus ideias. Observamos também, muitas vezes intrinsecos, movimentos populares que muitas vezes servem para reinvindicar direitos e lutas por melhores condições de vida e uma sociedade menos desigual. Só que muitas vezes a causa deixa de ser legítima, ela perde seu potencial de debate e se torna dogma, se baseando no discurso de autoridade. Poderiamos dizer sobre uma necessidade quase inerente da sociedade de levar os argumentos aos extremos e ignorar qualquer idéia que venha contradizer a ideologia do grupo. Podemos buscar algumas respostas no filme. Por exemplo, a questão da disciplina e autoridade. Em regimes totalitários, essas duas características são fundamentais, elas permitem o desenvolvimento da força e identidade do grupo, permite que cada membro se identifique e se sinta parte do grupo, mas por outro lado, exclui a capacidade de discussão e debate sobre a ideologia do grupo. Outra questão seria a fraqueza individual, o desespero e muitas vezes o medo. Estes eram sentimentos comuns na Alemanha nazista, completamente destruida e falida depois da primeira guerra mundial, e estes sentimentos permitiram a ascensão do nazismo, do preconceito, e do ódio aos judeus. No entanto, estes sentimentos não morreram lá, eles ainda estão presentes no mundo atual. O muçulmano fanático ainda tem o medo e o desespero ao ver seu país invadido e destruído. O jovem ainda se sente isolado e solitário ao sofrer bullying na escola, ou quando seus pais não são suficientemente bons. Estes são só alguns exemplos, de como fatores antes vistos ainda permanecem, claro que variando de grau para cada evento, mas que reuni estes exemplos dentro de um mesmo grupo. Por isso, ainda é fácil ultrapassar o limite, por isso ainda é fácil se deixar levar pelo fanatismo e cometer crimes contra a humanidade. A Ditadura ainda é possível, e está bem presente na nossa sociedade. Talvez o limite possa ser visto, mesmo que de longe, quando ao menos falamos dele. A discussão, orientação e o debate são extremamente necessários nos tempos atuais, aleas sempre foram. Quando você discuti suas ideias e conceitos com a comunidade é bem possivel que você não se perca em seu próprio mundo, pois neste momento você estará experimentando outros argumentos, outras ideias que muitas vezes vão até melhorar o seu. Este deve ser o verdadeiro poder da comunidade, a capacidade do desenvolvimento ético, moral, teórico-científico em prol da sociedade. Creio que está foi a mensagem que o filme passou, para não nos perdermos nas nossas próprias ideias, e muito menos aceitarmos na íntegra discursos alheios, tomando seus autores como autoridades.

Para finalizar, disponibilizarei um link que contém uma resenha muito interessante de um professor que falou de um outro filme, que diga-se de passagem tem o mesmo nome e trata do mesmo evento.

http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm

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