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Posts Tagged ‘Big Sur’

“Se você acha que Jack Kerouac encontrou a salvação na estrada, você não conhece Jack”. Esta é a frase que abre o documentário “One fast move or I’m gone: Kerouac’s Big Sur”, filme sobre o livro que comentarei aqui hoje. Big Sur, publicado em 1962, retrata uma atmosfera diferente daquela de On the road ou The dharma bums, mais alegre, vívida e cheia de esperança. Ao acordar bêbado em um quarto de hotel em São Francisco, Jack Duluoz (o alter-ego de Kerouac) tem um momento de lucidez e percebe sua condição precária, lamentosa, gosmenta e derrotada. Com uma ressaca desgraçada, ele vê o quarto bagunçado e lá está sua mochila no chão, ao lado de garrafas de vinho do porto branco, bitucas de cigarro e lixo. O plano de Jack era passar um bom tempo na cabana de seu amigo Lawrence Ferlinghetti no Big Sur, sem fazer nada de especial, somente querendo fugir da vida de fama e de perturbações por causa de seu On the road.

big sur
Assim, o que movimenta Big Sur é este embate de Duluoz entre seu alcoolismo avançado e sua vontade de ficar isolado, buscar paz em meio de um mundo que não é mais o dele, um mundo que está se transformando e engolindo o rei beatnick. Entretanto, Jack não consegue ficar longe da farra e da bebida, deixando a vida selvagem em Big Sur e retornando aos bares de São Francisco em vários momentos do livro. Se somente a bebida e a fama já são dureza para Kerouac, soma-se a isto um progressivo colapso mental, deixando ele ainda mais confuso e deprimido. Como podem ver, Big Sur é um livro pesado e um tanto deprimente, mas ainda assim conserva a sensibilidade do escritor e pequenos momentos de alívio.
No verso do livro, da edição da L&PM, está escrito que este é o romance mais honesto de Kerouac. Talvez por ser um desabafo de raiva por ser famoso, já que o sucesso de On the road não combinou muito com sua natureza reclusa e tímida. Em uma determinada parte do romance, onde Duluoz reencontra Cody (Neal Cassidy, o Dean Moriarty de On the road), os dois se olham sem dizer uma palavra, e mesmo assim, Duluoz compreende que aquele tempo só deles não existe mais. Agora é fama, muita gente querendo saber tudo daquela dupla de aventureiros loucos, o que incomoda muito Kerouac. Por muitos motivos, a relação dos dois não é a mesma de On the road, e eles sabem disso. A vida muda as pessoas, e Kerouac está perto de seus 40 anos, barrigudo, bêbado e descrente na chamada geração beat.
kerouacEstou usando Kerouac e Duluoz, o autor e a personagem, de forma inteiramente intercambiável por uma razão. Como os conhecidos de Kerouac sabem, e como comentei no post de The dharma bums, as “ficções” de Kerouac são altamente baseadas em sua própria vida. Como é explicado neste excelente post de David Furtado, Jack Kerouac era bastante fã de Marcel Proust e carregava uma edição de Em busca do tempo perdido como talismã, o que levou o autor a pensar seus livros como uma grande obra única: The Duluoz Legend. Em um prefácio da edição americana de Visions of Cody, Kerouac diz que seu trabalho se parece com Em busca do tempo perdido, de Proust, sendo que On the road, The subterraneans, The Dharma bums, Doctor Sax, Maggie Cassidy, Tristessa, Desolation Angels e mais alguns outros não passam de capítulos da grande obra que se chama The Duluoz Legend.
The Duluoz Legend deve ser lida em ordem do acontecimento dos fatos, não na ordem em que os livros foram publicados. Achei algumas listas dos livros que compõem a grande obra de Kerouac. Na Wikipédia, a ordem é a seguinte: Atop an underwood: Early stories and other writings; Visions of Gerald; Doctor Sax (que parece ser bastante experimental e pouco acessível); The Town and the city; Maggie Cassidy ; Vanity of Duluoz; On the road; Visions of Cody (considerado um dos melhores); The subterraneans; The dharma bums; Desolation angels; Tristessa; Big Sur e Satori in Paris. Aquele post do David Furtado faz um bom resumo de sua vida, mesclando-a com algumas das principais obras de The Duluoz Legend.
Depois de ler Big Sur e ficar sabendo da lenda de Duluoz, meu interesse pelos outros livros de Kerouac cresceu bastante. Ele não é um escritor perfeito, muito menos foi uma pessoa perfeita. Algumas partes de seus romances são cansativas, dizem que até mal escritas, mas mesmo assim são obras interessantes e fortes. Kerouac foi revolucionário, inconformado e com fúria de viver. Negava a sociedade do pós-guerra e buscou a iluminação do budismo, mas no fim da vida, reconciliou-se com o cristianismo de sua família e defendeu a guerra do Vietnã. Foi um cara interessante, mas nem um pouco perfeito. Ainda assim, quero ter em minhas mãos mais livros que compõem a lenda de Duluoz, talvez por ser um retrato elétrico, confuso e bastante realista de uma vida que se tornou ídolo. Os próximos que quero ler são Tristessa, o conto do envolvimento amoroso de Kerouac com uma bela mexicana viciada em heroína, e Maggie Cassidy, sobre o primeiro amor de Jack durante a adolescência e sua vida em Lowell, Massachusetts.

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