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Posts Tagged ‘Crítica’

Este livro que acabo de devorar, deveria ter o seguinte aviso antes da história começar: Os personagens aqui presentes podem causar depressão severa.

“A hora da estrela”, somente um dos treze títulos deste romance, é último publicado em vida da autora, em 1977. Seguindo uma narrativa que continua moderna, o livro não tem divisão em capítulos, é dinâmico, brutal e reflexivo. Aqui encontramos pessoas miseráveis, feias e sem (auto)conhecimento. Vemos a incapacidade de ascensão social, o vazio e a solidão. Nas palavras de Lispector: é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima. Ou como ela define liricamente no meio do romance, é sobre parafusos dispensáveis numa sociedade técnica.

A miserável central da história é Macabéa, uma alagoana órfã que foi morar no Rio de Janeiro. Outro miserável é o narrador, pois na verdade “A hora da estrela” é uma metanarrativa. O romance se desenvolve a medida que Rodrigo S. M., escritor alter-ego de Clarice, arranca a história da nordestina de suas tripas enquanto espera a morte.

Macabéa simplesmente me deu agonia. Seu passado é lamentável e seu futuro mais ainda. Após perder seus pais, é criada pela sua única parente, uma tia beata e violenta. Rodrigo escreve que Macabéa só virou mulher tardiamente pois até em capim vagabundo há desejo de sol. É descrita como uma cachorra vadia, que só vive por viver, sem conhecimento de si mesmo. É passiva a ponto de irritar, magra, doente e totalmente perdida. Seu rápido namoro com o também nordestino Olímpico é o inferno que qualquer casal pode imaginar: O homem humilha Macabéa sendo grosso e punitivo; Macabéa é totalmente sem sal, como não podia ser diferente, e apesar da garota pensar que Olímpico lhe trará ascensão na vida, um não tem nada a oferecer ao outro.

Uma vez Olímpico levou-a ao zoológico e ela se mijou toda.

Mas continuei lendo e adorando, e as desgraças só aumentam. A história da nordestina é interrompida a todo momento pelos devaneios e observações de Rodrigo. Na verdade, ele nos enrola bastante no começo.

O climax é o encontro da moça com a cartomante, cena baseada na própria experiencia de Lispector. Após a cartomante contar sobre seus bons tempos de prostituta, ela ergue o véu que cobria o passado da própria Macabéa, percebendo então que viveu tempos infelizes. Mas a cartomante lhe enche de esperanças ao prever que um gringo louro irá entrar em sua vida. Macabéa vai para a rua, observa o crepúsculo e dá um passo fora da calçada… O destino se cumpre e chega a hora da estrela.

É a primeira obra de Lispector que tive o prazer de ler. Já li na internet que Clarice Lispector é o Kafka latino-americano, ou a nossa Virginia Woolf. Sou cético quanto comparações desse tipo e também nunca li nada da Woolf até hoje, mas “A hora da estrela” me atraiu imensamente.

Aliás, não entendo porque há tantos resumos desse romance (que é tão curto como um conto) na internet. Dedica-se uma tarde, duas se for preciso, só para ler o livro que será muito recompensador. A beleza e a graça do estilo está no livro, não nas páginas da web. Então, se você veio parar aqui buscando um resumo junto com uma análise quadradinha para fazer uma prova, vá ler o livro, meu caro.

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Ingmar Bergman (1918 – 2007) foi um cineasta sueco que possui uma filmografia contando com aproximadamente 50 títulos (O Sétimo Selo, Gritos e Sussurros, Persona, Sonata de Outono, dentre muitos). Filmes considerados herméticos, obscuros e misterioso, geralmente abordam conflitos psíquicos, angústias e dilemas recorrentes da vida. “Morangos Silvestres” não é diferente. Esse premiado filme aborda uma viagem de um professor idoso que será homenageado em Lund, misturando lembranças com sonhos enquanto o personagem reavalia sua vida e começa a se confrontar com a mortalidade. O grande tema de Morangos Silvestres é esse olhar a própria vida de um modo distanciado que somente a idade pode proporcionar. E as vezes o que vemos é desagradável.

Antes dos créditos e do título, o filme abre com Isak Borg, o professor velho, trabalhando em sua escrivaninha. As linhas bem escritas, característica do roteiro, são narradas pelo velho. A primeira coisa que ele nos diz é que convivemos com as pessoas discutindo e criticando-as, e por isso, ele se afastava da vida social e está sentindo as consequências disso, estando solitário em sua velhice. Durante sua vida, concentrou seu foco na Ciência e em sua profissão, tornando-se um professor renomado. Depois de dizer que irá receber um Título Honorário na Catedral de Lund no dia seguinte, a música do filme toca e entram os créditos. Essa cena serviu como uma introdução muito bem executada por Bergman.

Isak resolve partir mais cedo e ir de carro invés de avião, dando um clima road movie. Além de ser acompanhado pela nora, que está num casamento em crise, Isak dá carona para três jovens e  para um casal briguento, que logo são deixados na estrada. Mas isso depois de parar no caminho para visitar sua antiga casa da infância e encontra o canteiro de morangos silvestres. A partir daí, Isak Borg revive vários momentos da infância com um olhar já gasto, sábio e melancólico. A viagem não é só geográfica, é também espiritual.

Frequentemente acusam Isak de ser uma pessoa egoísta e fria, e dentro do carro em movimento, sua nora confessa que seu marido parece muito com Isak. Esse é um dos assuntos chave no filme: O velho tornou-se uma pessoa fria sem perceber, enquanto sua vida tomava caminhos imprevisíveis; e o mesmo parece acontecer com o casamento de seu filho. É mais uma coisa pra ocupar os pensamentos de Isak.

Certamente que não consigo colocar um resumo digno, bem estruturado e explicado, mas acredito que a sinopse não passa disso.

A cena em que o professor tem um estranho sonho representa os melhores minutos do filme. A direção, os movimentos de câmera, a fotografia e o clima surreal compõem uma daquelas cenas que podem ser vistas a parte do filme, de tão potentes. Vejam a sequência: http://www.youtube.com/watch?v=A3n4TxNeaPg. Falando em fotografia, Gunnar Fischer, da equipe de Bergman e responsável pelas fotos é foda.  Fotografia de mestre.

Tinha muitas expectativas em relação a esse filme e sinto que elas não foram supridas. Achei parado e não muito reflexivo. “O Sétimo Selo” (para mim muito mais filosófico, sombrio e intrigante) me agrada muito mais e aborda a mortalidade e a existência com mais garra, apesar de críticos considerarem Morangos Silvestres igualmente ótimo. Sinceramente, eu não entendi o papel dos três jovens no filme, só servem como gatilho para lembranças de Isak. Por ser um filme com estética de alta qualidade, temas universais e boas atuações e direção, pretendo rever quando for mais velho. Quem sabe tiro algo diferente do filme, descubro camadas ou algum detalhe importante que deixei escapar.

Acredito que Morango Silvestres agrada mais os “iniciados” na obra de Bergman. Recomendado aos interessados por velhice ou por filmes históricos do cinema. Se nunca viu um filme de Bergman, recomendo que comece por outro mais legal e mais “fácil”.

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