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Posts Tagged ‘ficção científica’

An Alien Heat

An alien heat é engraçado, muito bem escrito e aparentemente desconhecido. Pouco se acha sobre ele em páginas brasileiras e até mesmo em inglês. Após me satisfazer muito com a leitura e ver que não há muitas resenhas ou comentários disponíveis na internet sobre essa obra de Moorcock, resolvi voltar a escrever para o blog.

Achei esse livro na seção de literatura em língua inglesa em um sebo da minha cidade. Capa dura verde, velho e meio desgastado, custando 5 reais. O fato de Michael Moorcock ser uma influência para Alan Moore foi definitivo para eu me interessar pelo livro de capa dura verde e, por sorte, eu já estava levando mais dois livros e sabia que a mulher do sebo iria me dar um desconto. No fim, o livro saiu de graça. Ele ficou parado na minha estante por uns 7 meses, até que um dia eu resolvi dar uma olhada e,  quando percebi, já estava no capítulo dois.

Comecemos com os dados básicos: An alien heat é o primeiro livro da trilogia The dancers at the end of time, do já mencionado escritor inglês Michael Moorcock. O pano de fundo da trilogia é a morte inexorável do universo que conhecemos, assim como a vida decadente, livre e bizarra dos humanos em um futuro longínquo. Nesse estágio da humanidade, o conhecimento e tecnologia chegaram ao ponto de deixar a morte e o nascimento para o passado, sendo o protagonista da trama, Jherek Carnelian, o ultimo homem nascido. Os habitantes do fim dos tempos vivem como semi-deuses, controlando a cor do céu e do oceano, criando banquetes, festas e cidades inteiras do nada, fazendo de tudo para afastar o tédio da vida eterna. É curioso (e não deixa de ser uma crítica sutil) o fato de eles utilizarem todo o conhecimento tecnológico para mudar a materialidade, mas sem ter uma clara noção de como tal tecnologia funcionam: só querem se divertir. Pode-se trocar de sexo à vontade e espontaneamente, e até mesmo virar um gorila se você quiser. Pessoas do passado (como muitos de nós) iriam ver a sociedade do futuro como imoral, já que Jherek faz sexo com a própria mãe no primeiro capítulo, faz sexo com seu amigo e há também uma prostituta chamada Everlasting Concubine que adora transar com todos.

Mas isso tudo fica de background e introdução para o que realmente acontece em An alien heat. Além de ser uma ficção científica diferente das fc de robôs, espaços e aliens, The dancers at the end of time é sobretudo uma história de amor. E sobre viagem no tempo. Como Moorcock diz no prólogo do primeiro livro, “o que segue é a história de Jherek Carnelian, que não sabia o significado da moralidade, e Mrs Amelia Underwood, que sabia tudo sobre isso”. Como é de nossa condição buscar sempre algo para fazer, Jherek, além de ser fissurado por artefatos e história da Inglaterra do século XIX, decide investigar o sentido da palavra “virtude”. Isso é compreensível, uma vez que no futuro palavras abstratas de cunho moral ou de boa conduta, como virtude, perderam completamente seu sentido. E a importância no livro de Amelia Underwood, uma moça abduzida coincidentemente do século XIX e mandada para o fim dos tempos, é precisamente mostrar o enorme choque de cultura causado por milênios de anos. Jherek, encantado com a beleza da moça e por se tratar de uma habitante da Inglaterra vitoriana, decide apaixonar-se por ela. A partir de então, muita coisa acontece com Jehrek Carnelian ao tentar conquistar o amor de sua adorada. Em um determinado momento, os dois voltam para o século XIX e para a sorte do leitor, muita merda acontece.  Jherek fica totalmente deslocado, tentando compreender como as pessoas do passado se comportam, sem saber absolutamente nada sobre valores e hábitos comuns para nós.

Esse é o enredo principal de An alien heat. Não seria bom o suficiente para a história se sustentar se não fosse a ótima escrita e o humor refinado do autor inglês. Em meio a uma linguagem envolvente e culta, dando agilidade ao romance, há tiradas sobre moralidade, sobre nossa condição humana e é claro, sobre o amor. É muito interessante ver os costumes e a moral a partir da experiência de Jeherk. No começo, achei a situação dos habitantes do fim dos tempos um tanto estranha demais, o que causou um distanciamento entre eu e os personagens, mas logo a leitura ficou muito melhor e Jehrek e seus amigos tornaram-se muito simpáticos. É isso que marca o livro, a simpatia e um divertimento lighthearted (uma história que deixa seu “coração leve”, deixa você alegre).

Uma coisa que chamou minha atenção em uma resenha que li sobre a trilogia é que The dancers at the end of time, além de ser uma história de amor, pode ser vista como uma história sobre deixar de pertencer ao seu lugar de origem, não pertencer à uma época ou à uma sociedade. Aliás, o título do primeiro livro pode ser traduzido como “um calor estrangeiro”, mostrando como a paixão está ausente, no caso do livro, em uma sociedade futura.

Sei que se eu quiser passar um tempo quieto, relaxar e dar umas risadas, irei reler esse livro enquanto não possuir os outros dois, The hollow lands e The end of all songs.

Michael Moorcock à esquerda e à direita Alan Moore, o mago barbudo muito foda dos quadrinhos.

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Uma recomendação rápida desse filme muito bom, pois a preguiça e a distância temporal me impedem de escrever uma crítica extensa. Não que o filme não mereça.

Depois de assistir Vanilla Sky (2001), filme mindfuck (foder, confundir a mente) que mistura drama, ficção científica, aventura erótica, distorção das percepções e da realidade, suspense e outras coisas (ou  como é descrito no Wikipedia: “uma história de amor e uma luta pela alma”), jurei que ele fosse baseado em algum livro de Philip K. Dick, escritor americano das mais estranhas ficções científicas, mas na verdade Vanilla Sky é uma refilmagem de um filme de um filme espanhol, de 1997, chamado Abre los ojos, escrito por Alejandor Amenábar e Mateo Gil.

Indico esse filmes para quem gosta de ficção científica soft, ou seja, não focada em tecnologias e naves espaciais e explosões estelares, mas sim focada em aspectos mais humanos, sociais ou filosóficos. Vanllia Sky lida com temas como identidade pessoal, memórias, realidade e imortalidade. Quem gosta de Quero ser John Malkovich não pode deixar de assistir Vanilla Sky (se não gostar, meta a boca nos comentários). E outra coisa, tenho a impressão de que esse filme é meio que, como dizem, “ame ou odeie”, por ser radical em sua bizarrice no roteiro e no estilo.

No filme, Tom Cruise é David Aemes, um homem realizado, dono de um império editorial, jovem e bonito. Sua vida muda quando se apaixona à primeira vista por Sofia Serrano (Penélope Cruz). A repentina paixão desperta ciúmes em Cameron Diaz, vivendo a personagem Julie Giani, que está em um relacionamento puramente sexual com David. Em um ataque de ciúmes enquanto David e Julie estão no carro dela, Julie declara que ama-o mas joga o carro por cima de um viaduto. Julie morre e David tem seu rosto totalmente desfigurado.  David sobrevive, e depois do coma, quer desesperadamente reconquistar seu visual perdido e ficar com Sofia. A partir de então, o filme é um quebra cabeças que brinca com fantasias, identidades e memória. A história divide-se em antes e depois da cirurgia, e a atenção de quem assiste é indispensável para acompanhar a historia, já que se trata de um mindfuck e não segue uma linearidade.

Pode parecer uma história boba,  mas as revelações, reviravoltas e o toque  de ficção científica deixam o filme complexo e instigante. Geralmente fico com um pé atras quando se trata de filmes com reviravoltas demais, entretanto, o filme tem um desfecho satisfatório e fiel a todo o resto da história. Assistir uma segunda vez também não é uma má ideia.

Pessoalmente, não gosto do Tom Cruise, mas ao lado de Colateral e Nascido em 4 de Julho, Vanilla Sky mostra que ele é um bom ator.

Como diz nessa crítica do Omelete, Vanilla Sky manteve-se fiel ao original Abre los ojos, só modificando pequenos detalhes insignificantes para a história. Isso é uma das muitas provas de que os norte americanos tem tanta preguiça e tanto dinheiro sobrando que fazem um remake de filmes estrangeiros em vez de legenda-los.

Assisti esse filme há uns cinco ou seis meses, e hoje fiquei com vontade de escrever sobre ele ao escutar uma música que toca no filme, do Sigur Ros (a trilha sonora do filme chama atenção, tem boas músicas e é importante para a atmosfera da história). Segue a música:


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Que o homem é o mestre da natureza é o caralho. Representada pelo macaco Cesar durante uma cena chave, a natureza recusa-se a ser tratada como bichinho doméstico.

Planeta dos Macacos – A origem (Rise of  The Planet of The Apes, 2011) mostra a natureza gritando “não!” ao homem, colocando-o no seu devido lugar. Esse prequel para o filme de 1968, o primeiro Planeta dos Macacos, se passa em São Francisco.

Em São Francisco, o experimento com um remédio contendo o vírus ALZ 112, destinado a terapia genética para a cura do Mal de Alzheimer, mostrou ótimos resultados com chimpanzés. Porém, após um desastre com uma das cobaias, Will Rodman (James Franco), cientista criador da droga, leva o filhote dela para casa meio contra gosto. Talvez o macaquinho seja uma boa companhia para seu pai Charles que sofre de Alzheimer (John Lithgow), que acaba batizando o macaquinho de Cesar. Passam-se 3 anos, Cesar cresce e apresenta um desenvolvimento cognitivo mais veloz que de um bebê humano. Ele aprende alguns sinais para se comunicar com Will e demonstra ter emoções. Cesar vive alegremente no sótão, onde tem brinquedos e uma janelinha para ver o mundo lá fora.

Em um momento, Charles com seu Alzheimer mais avançado devido uma rejeição no próprio corpo da droga 112, pensa que o Mustang estancionado na rua do vizinho é o dele e entra no carro para dirigir. Como é de se esperar, o velho bate o carro muitas vezes tentando sair do acostamento. O vizinho aparece e, sem considerar a doença de Charles o agride e chama a polícia. Enquanto isso, do sótão Cesar observa com fúria o vizinho cutucar Charles e resolve ir pra rua defender seu “avô”. O macaco, nesse momento mostrando sua capacidade agressiva, dá umas porradas no cara, o deixa assustado e quase arranca um dedo de sua mão. A polícia chega e Cesar é capturado para ser levado a um viveiro do governo parar símios em San Bruno.

Assim como a mãe de Cesar  foi morta na empresa tentando defender  seu bebê, Cesar é punido defender Charles. Se o ato de defesa da mãe macaco trouxe Cesar para Will, o ato de defesa de Cesar o tirou de Will para sempre.

Confinado no viveiro, Cesar experiencia uma verdadeira prisão. Sofre mal tratos por parte de um bastardinho que cuida dos animais, é agredido por Rocket, que entendi como o macaco alfa do local, sofre de solidão e com a péssima comida. Porém, encontra uma companhia a sua altura, um orangotango de circo que também sabe se comunicar por sinais. “A evolução torna-se revolução”, como está escrito no poster americano do filme, Cesar começa a planejar se revoltar com a ajuda dos seus companheiros de espécie. Aí começa a parte de ação (bem dirigidas, vale dizer) que imagino que muitos esperavam desde o começo do filme, quando os macacos destroem tudo. Mas não é bem assim. O fim do filme vai surpreender alguns e alegrar aqueles que gostariam de uma sequência para a origem.

Cesar, apesar de fazer referência ao fascismo com a conversa sobre os gravetos, quer a liberdade com o menor numero de baixas humanas possível. É evidente a inteligencia de Cesar durante os combates. Ele é estratégico como um verdadeiro romano, como é mostrado na batalha final do filme no meio da ponte Golden Gate.

O exército de macacos liderados por Cesar parece não buscar vingança generalizada, mas liberdade e respeito. Seu destino é chegar até a floresta de sequoias, não sair destruindo prédios. Certo, eles destruíram a Gen-Sys, mas foi um ataque válido para Cesar, já que é para lá que alguns dos seus companheiros chimpanzés foram levados para experimentos, e simbolizou uma revolta contra suas raízes humanas.

Considerei Planeta dos Macacos – A origem bom por alguns motivos que consegui pensar: A interpretação de Andy Serkis, quem faz os movimento e expressões de Cesar; a fotografia do filme e os movimentos de câmera, e por ser uma historia simples de ficção científica, mas bem contada. Sobre Serkis é vital dizer que Cesar consegue nos passar uma humanidade tremenda e assim, pode gerar empatia com quem assiste. Se você ficou triste ou torceu por Cesar, uma grande parte do mérito é de Serkis. Pessoalmente, achei um ótimo personagem com atuações dignas. Sobre a fotografia do filme, é só observar para ver a beleza. É um visual muito agradável e deixa a história ser contada com mais prazer.

E a ficção científica? Apesar dessa coisa de macacos dominarem o mundo existir no mínimo desde 68, com o primeiro filme, Rise of The Planet of The Apes consegue ser um filme muito melhor que o Planeta dos Macacos de Tim Burton e dar uma força nova para a saga. Mérito dos roteiristas. Dedicam o filme para contar a história sem pressa, mostrando as transformações e o crescimento de Cesar. E também podemos pensar em outras questões que se apresentam no roteiro as vezes de maneira sutil. Em que o homem se mete ao tentar vencer a velhice e a doença, como Will tentava? O filme levanta questões importantes para os cientistas. Qual é o limite para o controle humano sobre a natureza? Ainda é ético realizar experimentos com animais? Foi uma instituição humana que tornou Cesar num rebelde agressivo, transformando em um guerreiro por um batismo de punição. E os efeitos danosos causados nos humanos pela droga 113? Mostram o perigo do desenvolvimento científico ambicioso, a autodestruição humana.

É interessante também notar que macacos, parentes de um mesmo ancestral comum, tiram o homem do pódio. Talvez eles sejam animais racionais muito melhores que a gente. Só Bacon pra dizer que ainda somos os mestres da natureza.

Quando a briga  é entre a natureza e o homem, o filme é mais um aviso que quem sai nocauteado é a humanidade.

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