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Posts Tagged ‘Literatura’

“Se você acha que Jack Kerouac encontrou a salvação na estrada, você não conhece Jack”. Esta é a frase que abre o documentário “One fast move or I’m gone: Kerouac’s Big Sur”, filme sobre o livro que comentarei aqui hoje. Big Sur, publicado em 1962, retrata uma atmosfera diferente daquela de On the road ou The dharma bums, mais alegre, vívida e cheia de esperança. Ao acordar bêbado em um quarto de hotel em São Francisco, Jack Duluoz (o alter-ego de Kerouac) tem um momento de lucidez e percebe sua condição precária, lamentosa, gosmenta e derrotada. Com uma ressaca desgraçada, ele vê o quarto bagunçado e lá está sua mochila no chão, ao lado de garrafas de vinho do porto branco, bitucas de cigarro e lixo. O plano de Jack era passar um bom tempo na cabana de seu amigo Lawrence Ferlinghetti no Big Sur, sem fazer nada de especial, somente querendo fugir da vida de fama e de perturbações por causa de seu On the road.

big sur
Assim, o que movimenta Big Sur é este embate de Duluoz entre seu alcoolismo avançado e sua vontade de ficar isolado, buscar paz em meio de um mundo que não é mais o dele, um mundo que está se transformando e engolindo o rei beatnick. Entretanto, Jack não consegue ficar longe da farra e da bebida, deixando a vida selvagem em Big Sur e retornando aos bares de São Francisco em vários momentos do livro. Se somente a bebida e a fama já são dureza para Kerouac, soma-se a isto um progressivo colapso mental, deixando ele ainda mais confuso e deprimido. Como podem ver, Big Sur é um livro pesado e um tanto deprimente, mas ainda assim conserva a sensibilidade do escritor e pequenos momentos de alívio.
No verso do livro, da edição da L&PM, está escrito que este é o romance mais honesto de Kerouac. Talvez por ser um desabafo de raiva por ser famoso, já que o sucesso de On the road não combinou muito com sua natureza reclusa e tímida. Em uma determinada parte do romance, onde Duluoz reencontra Cody (Neal Cassidy, o Dean Moriarty de On the road), os dois se olham sem dizer uma palavra, e mesmo assim, Duluoz compreende que aquele tempo só deles não existe mais. Agora é fama, muita gente querendo saber tudo daquela dupla de aventureiros loucos, o que incomoda muito Kerouac. Por muitos motivos, a relação dos dois não é a mesma de On the road, e eles sabem disso. A vida muda as pessoas, e Kerouac está perto de seus 40 anos, barrigudo, bêbado e descrente na chamada geração beat.
kerouacEstou usando Kerouac e Duluoz, o autor e a personagem, de forma inteiramente intercambiável por uma razão. Como os conhecidos de Kerouac sabem, e como comentei no post de The dharma bums, as “ficções” de Kerouac são altamente baseadas em sua própria vida. Como é explicado neste excelente post de David Furtado, Jack Kerouac era bastante fã de Marcel Proust e carregava uma edição de Em busca do tempo perdido como talismã, o que levou o autor a pensar seus livros como uma grande obra única: The Duluoz Legend. Em um prefácio da edição americana de Visions of Cody, Kerouac diz que seu trabalho se parece com Em busca do tempo perdido, de Proust, sendo que On the road, The subterraneans, The Dharma bums, Doctor Sax, Maggie Cassidy, Tristessa, Desolation Angels e mais alguns outros não passam de capítulos da grande obra que se chama The Duluoz Legend.
The Duluoz Legend deve ser lida em ordem do acontecimento dos fatos, não na ordem em que os livros foram publicados. Achei algumas listas dos livros que compõem a grande obra de Kerouac. Na Wikipédia, a ordem é a seguinte: Atop an underwood: Early stories and other writings; Visions of Gerald; Doctor Sax (que parece ser bastante experimental e pouco acessível); The Town and the city; Maggie Cassidy ; Vanity of Duluoz; On the road; Visions of Cody (considerado um dos melhores); The subterraneans; The dharma bums; Desolation angels; Tristessa; Big Sur e Satori in Paris. Aquele post do David Furtado faz um bom resumo de sua vida, mesclando-a com algumas das principais obras de The Duluoz Legend.
Depois de ler Big Sur e ficar sabendo da lenda de Duluoz, meu interesse pelos outros livros de Kerouac cresceu bastante. Ele não é um escritor perfeito, muito menos foi uma pessoa perfeita. Algumas partes de seus romances são cansativas, dizem que até mal escritas, mas mesmo assim são obras interessantes e fortes. Kerouac foi revolucionário, inconformado e com fúria de viver. Negava a sociedade do pós-guerra e buscou a iluminação do budismo, mas no fim da vida, reconciliou-se com o cristianismo de sua família e defendeu a guerra do Vietnã. Foi um cara interessante, mas nem um pouco perfeito. Ainda assim, quero ter em minhas mãos mais livros que compõem a lenda de Duluoz, talvez por ser um retrato elétrico, confuso e bastante realista de uma vida que se tornou ídolo. Os próximos que quero ler são Tristessa, o conto do envolvimento amoroso de Kerouac com uma bela mexicana viciada em heroína, e Maggie Cassidy, sobre o primeiro amor de Jack durante a adolescência e sua vida em Lowell, Massachusetts.

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sherlock-_-a-study-in-scarletAlém de ter lido “The dharma bums” nestas férias, li também “Um estudo em vermelho” de Arthur Conan Doyle, o primeiro caso de Sherlock Holmes. Só conhecia este famoso personagem de ouvidos e com as duas adaptações cinematográficas de Guy Ritchie, Robert Downey Junior e Jude Law. Alias, preferi ignorar a caracterização que Conan Doyle faz de seus personagens para ficar com Downey Jr e Jude Law como Holmes e Watson, respectivamente. É mais divertido ficar imaginando eles durante a leitura do livro.

A obra original de Conan Doyle sobre Holmes é vasta, totalizando em 4 romances e 56 contos. Após “Um estudo em vermelho” seguem-se “O signo dos quatro”, “O cão dos Baskervilles” e “O vale do terror”. Os contos estão reunidos em diversos livros, como “As aventuras de Sherlock Holmes” e “O último adeus de Sherlock Holmes”. Este primeiro romance do cânone apresenta um caso de aparente homicídio, em que a vítima não apresenta cortes ou ferimentos, sendo encontrada esticada no chão de um cômodo vazio junto com a palavra RACHE na parece, escrita com sangue, e uma aliança junto ao corpo. Tudo desenvolve-se a partir daí, levando a trama até Salt Lake City, nos EUA, e envolvendo a comunidade mórmon. Nunca tive medo dos mórmons, até ler este livro.

Acredito que esse livro é bom para quase todo mundo, desde aqueles que estão iniciando agora e não sabem com qual bom título começar, para os mais relaxados, para os mais “cultos”, para os amantes do gênero e para quem nunca tinha lido um livro policial. Leio muito pouco deste gênero, e não sei por quê, mas tinha a impressão que a linguagem iria ser mais travada por uma estrutura antiga e por joguinhos bestas de “quem matou quem”, “quem será o culpado”, etc. Mas não. A narração do doutor Watson não se apega aos extremos detalhes do crime (somente na conclusão) e não há uma atmosfera artificial e forçada para criar suspense. O livro tem uma narrativa bastante rápida, com ganchos ao fim de cada capítulo e linguagem fácil.

Doyle é bastante competente e toda a fama de Sherlock Holmes não é a toa, o livro é realmente bom e muito inteligente. Vale a pena por mostrar como Sherlock Holmes e o doutor Watson se conheceram em Londres, pela descrição das habilidades e vícios dos dois companheiros e pelo fascínio que o temperamento e a inteligência do detetive exerce em Watson e, consequentemente, em nós leitores.

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dharma bums
A geração beat, formada principalmente por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Neal Cassady e Gary Snyder, foi um grupo de escritores norte-americanos desencantados com a América do pós-segunda guerra mundial. O grupo teve maior fama nos anos 50, sendo que a vida e obra de seus membros foram permeadas pela negação aos conceitos instituídos na sociedade, pelo uso de drogas, por um modo novo de se fazer escrita e de viver, pegando a estrada ou a trilha, praticando a sexualidade por vias alternativas, adotando religiões orientais e tendo uma postura antimaterialista perante a vida. Muitos consideram os autores beatniks como precursores do movimento hippie, e o livro The dharma bums de Jack Kerouac sustenta muito bem esta afirmação.
The dharma bums, trazido aqui no Brasil como Os vagabundos iluminados, foi publicado em 1958 e baseia-se no período em que Kerouac (Ray Smith, no livro) estava interessado pelo budismo e pelo montanhismo, atividades introduzidas por seu amigo Gary Snyder (Japhy Ryder, no livro). Não há muito que contar como sinopse deste livro: Ray Smith está buscando se aperfeiçoar em seu budismo e ao conhecer Japhy, os dois passam a ser bons amigos e compartilham sonhos e festanças, vivendo de maneira simples aproveitando as estradas e a natureza oferecem. Passado principalmente em São Francisco e redondezas da Califórnia, o livro é embalado por viagens de carona, caminhadas, subidas em montanhas e invasão de trens cargueiros, uma vez que os personagens do livro não se apegam a moradias fixas, vivem com pouco dinheiro e valorizam muito a experiência direta com o mundo. O termo beat também é entendido como beaten down (quebrado ou cansado), fazendo referência ao modo simples e barato de viver de Kerouac, assim como o ideal de budismo que o personagem/autor busca, uma espiritualidade calma desapegada das coisas materiais. Além das viagens e montanhismo praticado com Japhy, há cenas de yab-yum, uma prática sexual presente em algumas religiões orientais, de bebedeiras, de festas gigantescas, de solidão e de contemplação.
Em uma certa parte do livro, enquanto Japhy e Ray estão em uma roda de amigos conversando, Japhy descreve uma imagem que é a essência de The dharma bums: um andarilho esfarrapado e cansado, carregando uma mochila nas costas, anda por uma rua de um subúrbio americano, onde há a mesma luz azulada saindo das janelas de todas as salas de televisão. O viajante atravessa a rua e é o único que não é escravo das telas, pois pode pensar diferente enquanto dentro daquelas casinhas, todos pensam exatamente a mesma coisa. Esta imagem capta bem o que aparece no livro como “revolução da mochila” ou rucksack revolution, o desejo de Japhy que toda a juventude deveria largar seu conforto e suas mentes pequenas, pegar uma mochila e percorrer as estradas e a natureza do continente. O que os vagabundos de dharma colocam em cheque é o sistema produzir-consumir-produzir-consumir que esgota e tira a vitalidade das pessoas, concepção resgatada pelos hippies posteriormente.
Um livro bastante inspirador, onde Kerouac relata de um modo lírico e objetivo suas viagens, seus momentos de festa e poesia e as andanças em busca da iluminação. Não sei dizer se os princípios budistas apresentados no livro são fieis aos ensinamentos do budismo original ou de alguma corrente variante deste, mas já li que o budismo aprendido por Kerouac e por muitos outros ocidentais sofreu deturpações e reinterpretações do budismo oriental, o que ocorre frequentemente com quase todas religiões, ideologias e filosofias. Em fim, achei mais interessante o que Kerouac tem a dizer sobre seus amigos e suas vivencias do que sua busca espiritual. Um livro menor, as vezes obscurecido por On the road, o clássico de Kerouac, mas ainda tem o mesmo potencial de abalar nossa rotina e implantar o desejo de sair por aí, se enfiando no mundo e buscando um jeito de viver mais livre, mais louco e mais autêntico. A maneira de Kerouac contar a história nos provoca uma nostalgia de uma não-experiência, um tempo não vivido por nossa geração, onde as estradas eram menos perigosas e repletas de esperanças. Mesmo assim, com as ruas de hoje mais assustadoras e apocalípticas, Kerouac nos dá um sopro de vida.

“Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte “lunática” de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana do México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso (…)”

Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os mais novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana.  (Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac)

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– Preferia não fazê-lo? – repeti, como um eco, levantando-me muito nervoso e atravessando a sala em grandes passadas.

– O que está querendo dizer com isso? Por acaso ficou louco? Quero que me ajude a conferir esta página. Tome aqui.

Estendi-lhe o documento. Mas Bartleby insistiu:

– Preferia não fazê-lo.

É este o espírito do consagrado conto de Herman Melville publicado pela primeira vez em 1853. É um livro bem curto, de umas 70 páginas, bem legal de se ler. E só para avisar, não vou soltar spoilers nesse post.

“Bartleby, o escrituário” (Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall Street) retrata os estranhos hábitos do jovem escriturário do título. Ficamos sabendo sobre Bartleby através do narrador da história, um advogado experiente de Nova York que contrata Bartleby para trabalhar junto com outros dois escreventes Nippers e Turkey e o office boy Ginger Nut. Nippers é um cara estourado e Turkey costuma encher a cara, mas os dois se compensam pois à tarde Nippers é mais calmo e Turkey está sempre sóbrio pelas manhãs.

No começo, Bartleby faz suas obrigações, produzindo cópias de documentos de alta qualidade, mas logo em seguida prefere não fazer mais nada. Todos no escritório ficam malucos, como é mostrado no trecho acima, o que faz com que o narrador busque conhecer melhor seu novo empregado, seu passado e qual a causa para esse comportamento tão bizarro. Ele tenta de tudo para compreender melhor quem Bartleby é, mas tudo o que consegue ao fazer qualquer tipo de pergunta é: “preferia não fazê-lo”. O narrador começa a ter um sentimento complexo em relação ao jovem escrivão, uma mistura de raiva por ele se recusar a tudo sem motivo aparente, intimidação pela sua calma e misteriosidade  e compaixão por ser um rapaz solitário, pálido e calmo.

Alguns dias se passam e o narrador descobre em um domingo antes de ir à igreja, quando a Wall Street está totalmente deserta, que Bartleby está morando no escritório. Isso incomoda o velho advogado de um jeito inexplicável, o que irá aumentar o mistério da trama, e também a tensão entre os dois.

O conto de Melville é amplamente conhecido e influente hoje em dia, apesar de não ter sido reconhecido na época. Já vi muitos artigos acadêmicos relacionando a trama de Bartleby com assuntos de psicologia, existencialismo e filosofia. Em um congresso sobre fenomenologia e existencialismo, lembro de uma palestrante utilizar o conto para ilustrar sua fala sobre o vazio existencial e o fechamento do horizonte do ser. E, após ler o livro, parece realmente ser uma história sobre claustrofobia, alienação e total solidão. O modo como o escritório é descrito, com poucas janelas, sendo que haviam muros altos bastante próximos que bloqueavam o sol, já serve como indicador do confinamento sofrido pelos personagens. É comum achar na internet análises dizendo que Bartleby é uma pessoa totalmente alienada de humanidade e de propósitos, como se recusa-se a fazer parte da sociedade. Como o grande Jorge Luis Borges aponta na introdução da edição que possuo do livro, “Bartleby, o escrituário” é um precursor do estilo de Franz Kafka, compartilhando o senso de absurdo, de mistério, de algo deste nosso mundo que dá vontade de gritar e que nos perturba. Isso é verdade, pois o peso da burocracia, a maquinização do homem e a falta de sentido nas atividades humanas podem ser encontrados no conto de Melville.

Ao acabar de ler o livro, não sabia direito o que pensar. Com certeza eu gostei, mas a digestão não é facil. O personagem é tão bizarro que a gente fica matutando sobre ele por bastante tempo; você pode não compreender direito as coisas mas mesmo assim a história te pega. Enfim, achei um livro muito interessante e misterioso, é um clássico que sempre tive curiosidade de ler, sem falar no estilo narrativo bastante prazeroso do autor. Me deu vontade de conhecer o épico sobre baleia, Moby Dick.

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Este livro que acabo de devorar, deveria ter o seguinte aviso antes da história começar: Os personagens aqui presentes podem causar depressão severa.

“A hora da estrela”, somente um dos treze títulos deste romance, é último publicado em vida da autora, em 1977. Seguindo uma narrativa que continua moderna, o livro não tem divisão em capítulos, é dinâmico, brutal e reflexivo. Aqui encontramos pessoas miseráveis, feias e sem (auto)conhecimento. Vemos a incapacidade de ascensão social, o vazio e a solidão. Nas palavras de Lispector: é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima. Ou como ela define liricamente no meio do romance, é sobre parafusos dispensáveis numa sociedade técnica.

A miserável central da história é Macabéa, uma alagoana órfã que foi morar no Rio de Janeiro. Outro miserável é o narrador, pois na verdade “A hora da estrela” é uma metanarrativa. O romance se desenvolve a medida que Rodrigo S. M., escritor alter-ego de Clarice, arranca a história da nordestina de suas tripas enquanto espera a morte.

Macabéa simplesmente me deu agonia. Seu passado é lamentável e seu futuro mais ainda. Após perder seus pais, é criada pela sua única parente, uma tia beata e violenta. Rodrigo escreve que Macabéa só virou mulher tardiamente pois até em capim vagabundo há desejo de sol. É descrita como uma cachorra vadia, que só vive por viver, sem conhecimento de si mesmo. É passiva a ponto de irritar, magra, doente e totalmente perdida. Seu rápido namoro com o também nordestino Olímpico é o inferno que qualquer casal pode imaginar: O homem humilha Macabéa sendo grosso e punitivo; Macabéa é totalmente sem sal, como não podia ser diferente, e apesar da garota pensar que Olímpico lhe trará ascensão na vida, um não tem nada a oferecer ao outro.

Uma vez Olímpico levou-a ao zoológico e ela se mijou toda.

Mas continuei lendo e adorando, e as desgraças só aumentam. A história da nordestina é interrompida a todo momento pelos devaneios e observações de Rodrigo. Na verdade, ele nos enrola bastante no começo.

O climax é o encontro da moça com a cartomante, cena baseada na própria experiencia de Lispector. Após a cartomante contar sobre seus bons tempos de prostituta, ela ergue o véu que cobria o passado da própria Macabéa, percebendo então que viveu tempos infelizes. Mas a cartomante lhe enche de esperanças ao prever que um gringo louro irá entrar em sua vida. Macabéa vai para a rua, observa o crepúsculo e dá um passo fora da calçada… O destino se cumpre e chega a hora da estrela.

É a primeira obra de Lispector que tive o prazer de ler. Já li na internet que Clarice Lispector é o Kafka latino-americano, ou a nossa Virginia Woolf. Sou cético quanto comparações desse tipo e também nunca li nada da Woolf até hoje, mas “A hora da estrela” me atraiu imensamente.

Aliás, não entendo porque há tantos resumos desse romance (que é tão curto como um conto) na internet. Dedica-se uma tarde, duas se for preciso, só para ler o livro que será muito recompensador. A beleza e a graça do estilo está no livro, não nas páginas da web. Então, se você veio parar aqui buscando um resumo junto com uma análise quadradinha para fazer uma prova, vá ler o livro, meu caro.

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Albert Camus: biografia

Albert Camus nasceu em Mondovi, na Argélia ainda colônia francesa, no dia 7 de Novembro de 1913.  Seu pai morreu na Primeira Guerra Mundial,  na batalha do Marne, um ano após o nascimento do filho. Camus, seu irmão mais velho, Lucien, e sua mãe foram pra Argel. Lá ele cresceu entre a pobreza do bairro proletário Belcourt, lugar que proporcionava a atmosfera intelectual para que Camus se interessasse por filosofia e pela política.

Seu primeiro livro de ensaios, “O avesso e o direito”, descreve o ambiente físico do bairro e do apartamento de dois cômodos que morava com a mãe, o irmão, a avó materna e seu tio paralítico. Os membros da família são retradados no livro também. Outra coletânea de ensaios, “Núpcias”, contém meditações líricas sobre o interior de Argélia e contrasta a frágil mortalidade do ser humano com a durabilidade do mundo físico.

Era um garoto muito talentoso, e ganhou uma bolsa escolar para o liceu com a ajuda do professor Louis Germain em 1923. Camus gostava muito de futebol e jogava bem como goleiro, mas a tuberculose impediu seu sonho de jogar profissionalmente.

Após o primeiro ataque de tuberculose, Camus passou um ano morando com seu tio, Gustave Acault, homem conhecido por ser culto e autodidata. Foi com Acault que ele desenvolveu seu amor por literatura e conheceu as ideias anarquistas.O professor de filosofia do liceu, Jean Grenier, também foi uma figura influente para Camus. Grenier introduziu o jovem ao pensamento de Bergson e Nietzsche. Após um tempo, o professor foi lecionar na Universidade de Argélia, na qual Camus ingressou em 1933. Neste período, Camus vivia sozinho e se mantinha com vários empregos.

Com uma paixão enorme pelo teatro, Camus escrevia, adaptava e trabalhava para o Thétre du Travail (Teatro dos trabalhadores), dando oportunidades para a comunidade proletária assistir grandes peças. Ele manteve seu interesse por teatro até a morte.

Grenier também influenciou Camus a participar do partido comunista da Argélia em 1934. Greiner acreditava que o melhor que Camus poderia fazer com sua simpatia pelo socialismo era se juntar com intelectuais já trabalhando para o partido. Camus nunca se denominou de marxista e não apoiava Lênin ou Stalin. Defendia o nativismo argelino, motivo pelo qual foi expulso do partido em 1935.

Camus conheceu Simone Hie em 1932. Hie era uma atriz boêmia considerada bonita, mas tinha problemas com vício em morfina desde quando tinha quatorze anos. Em 1935, Camus e Hie casam-se. Entretanto, Hie envergonhava Camus em público devido seus problemas e o traia dormindo com seus amigos. Camus resolve divorciar-se dela em 1940.

Em 1938, Camus trabalhou como jornalista no jornal de esquerda recém-inaugurado, Alger Republicain. Ele era responsável por cobrir as notícias da Argélia. O emprego no jornal proporcionou duas coisas além do salário: uma plataforma política, já que Camus tinha sido expulso do partido comunista; e a oportunidade de refinar sua escrita e escrever resenhas sobre literatura, como as obras de Jean Paul Sartre. Camus também escreveu uma série de artigos, chegando a escrever onze sobre a fome em Cabília, região norte da Argélia, área montanhosa banhada pelo Mediterrâneo.

Seus escritos políticos e sociais assinalavam muitas das injustiças que previam a Guerra da Argélia (1954 – 1962), conflito pela independência.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, O Alger Republicain teve que ser fechado. Depois de uma fracassada tentativa de erguer outro jornal no lugar, o Le Soir Republicain, Camus se muda para Paris em 1940. Em Paris, trabalhou em um jornal como datilógrafo, ofício que Camus não gostava. Como ele não conhecia ninguém na capital francesa e não se interessava pelos assuntos do jornal em que trabalhava, escândalos ou crimes, Camus ficou deprimido.

Em 1940, casa-se pela segunda vez com Francine Faure.

Na França, Camus encontrou tempo para dedicar-se à escrita. Em julho de 1942 publica “O estrangeiro” e em outubro publica “O mito de Sísifo”, obras que deixaram Camus famoso dentro dos círculos literários franceses. Em 1944, Camus escreve para Combat, a revista underground da resistência francesa. Depois que a França foi libertada do domínio nazista, Camus continuou escrevendo para a revista e publicou sua peça de teatro “O mal entendido”, ainda em 1944.

Em 1945 Camus encontra-se pela primeira vez com Jean Paul Sartre. Esse ano também testemunhou o nascimento de seus filhos gêmeos, Jean e Catherine.

Camus foi bem recebido nos Estados Unidos em um ciclo de palestras em 1946, sendo que no ano seguinte seria publicada o Best-seller de sua carreira, o romance “A peste”. No próximo ano, 1948, publicaria a peça de teatro “Estado de sítio”.

Camus, já um famoso escritor de muito respeito, enfrenta fortes ataques de tuberculose no período de 1949 a 1951. Além das dores físicas, Sartre critica “O homem revoltado”, obra de Camus publicada em 1951, causando grande tristeza no autor pela dura crítica feita pelo amigo. Camus entrou em depressão e cortou a amizade com Sartre em 1952.

Em 1956 ele publica “A queda” como uma reação ao fracasso d`“O Homem revoltado”. Apesar de o romance ser bem recebido por Sartre, dizendo que o “velho Camus está de volta”, os dois nunca mais fizeram as pazes. No ano seguinte, Camus recebe o premio Nobel de Literatura e realiza um discurso de agradecimento para Louis Germain, o professor do liceu.

Em um acidente de carro ocorrido em 4 de janeiro de 1960, Camus perde sua vida. Seu romance inacabado, “O último homem”, é encontrado em sua maleta, em meio aos destroços. A obra foi publicada postumamente em 1995.

Albert Camus, ensaísta, romancista e teórico político, foi considerado o porta voz da geração pós-segunda guerra mundial, não somente na França, mas no mundo inteiro. Seus escritos, sobre o isolamento do homem em um universo desconhecido, o estranhamento do indivíduo consigo mesmo, o problema do mal, e a fatalidade da morte, refletem acuradamente o espírito da desilusão intelectual após a Segunda Guerra Mundial.  Assim como Sartre, ele é lembrado por seus romances existenciais. Apesar de reconhecer o niilismo de seus contemporâneos, Camus acreditava na importância de defender valores como a verdade e a justiça. Em seus últimos trabalhos, Camus esboçou seu ideal de humanismo que rejeitava aspectos dogmáticos, como os presentes no cristianismo e no marxismo.

  • Obras de Albert Camus

1937 – O avesso e o direito (L’envers et l’endroit), ensaio.
1938 – Núpicias (Noces), antologia de ensaios.

1938 – Calígula (Caligula), peça de teatro.
1942 – O estrangeiro (L’Étranger), romance.
1942 – O mito de Sísifo (Le Mythe de Sisyphe), ensaio sobre o absurdo.
1944 – O mal entendido (La Malentendu), peça de teatro.
1947 – A peste (La Peste), romance.
1948 – Estado de sítio (L’Etat de siége), peça de teatro.
1950 – Os justos (Les Justes), peça de teatro.
1951 – O homem revoltado (L’Homme révolté), ensaio.

1954 – O verão (L`Été), ensaio.
1956 – A queda (La Chute), romance.
1957 – O exílio e o reino (L’exil et le royaume), contos.
1970 – A morte feliz (La Mort heureuse), publicado postumamente.
1995 – O primeiro homem (Le premier homme), romance inacabado publicado postumamente.

 Fontes:

ALBERT CAMUS BIOGRAPHY. Disponível em: < http://www.camus-society.com/ >. Acesso em: 06 nov. 2011.

BIOGRAPHY. Disponível em: <http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1957/camus-bio.html&gt;. Acesso em: 06 nov. 2011.

ALBERT CAMUS, BIOGRAPHY. Disponível em <http://www.biography.com/people/albert-camus-9236690&gt; Acesso em: 06 nov. 2011

 

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