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Árvore da vida (Tree of Life), dirigido por Terrence Malick é um filme ambicioso, profundo mas relaxante, parado mas recompensador. Se alguém já viu “Além da linha vermelha” ou “O novo mundo”, já está preparado pra receber o novo filme de Malick.

Inicialmente, é bom dizer que a história de “Árvore da vida” é somente um gatilho para questões e experiências maiores. O diretor parte da morte de um dos três filhos, levantando o conflito familiar entre Pai (Brad Pitt), Mãe (Jessica Chastain) e o filho mais velho (Sean Penn) no período da infância. Jack (Hunter McCracken), o jovem Penn, não se dá bem com o pai autoritário e cresce no meio da briga ideológica entre Pai e Mãe. O pai representa o típico americano texano dos anos 50, querendo chegar ao topo do mundo e tentando fazer homens dos seus filhos. Com o propósito de educar os filhos, em uma cena Brad Pitt tenta ensina-los a se defenderem de brigas e pede para que eles batam em seu rosto. Os garotos, assustados e confusos, não conseguem acertar o pai. É engraçado como a imagem de Tyler Durden emerge de Pitt quando ele quase grita Hit me, hit me. Por se tratar da morte, de maldade e bondade, da vida de modo geral, surgem diversas questões sobre a bondade de Deus e até mesmo sua existência, sem pender nem pro lado dos teístas nem dos ateístas.

Agora vem o grande diferencial desta obra: vemos que os personagens não passam de uma micro parte do universo. Eles não são tão importantes como protagonistas de filmes normalmente são. Sean Penn mal chega a abrir a boca (achei um desperdício de ator) e Pitt perde território da projeção para a Natureza (com n maiúsculo bem marcado). Nos vemos conectados com os três personagens principais, pois somos homens também e é isso que todos atores do filme representam: a humanidade.O nascimento de Jack, seu crescimento, sua relação com seus irmãos e a natureza é acompanhada por um espetáculo de imagens retratando o nascimento e crescimento do universo.

Começa com o big bang, logo galáxias e astros se formam em meio ao fogo, brilhos e gases, como numa grande placenta cósmica. Então surge a vida na Terra, a evolução dos animais e a extinção dos dinossauros com a queda de um grande meteoro. Só uma observação: parece que o casamento entre música clássica e o cosmos ainda está valendo; as cenas do universo com o uso da Lacrimosa, de Zbigniew Preisner, são uma clara homenagem ao 2001 de Kubrick.  O paralelo entre o desenvolvimento dos personagens e o desenvolvimento da natureza é a maneira mais bonita de nos lembrar que somos natureza e não algo superior à ela. É aí que o filme me atingiu de maneira mais forte. Num típico pensamento Newtoniano e Baconiano, vemos a humanidade como algo inabalável e dono do resto do universo, mas estamos mais pra fungos passageiros parasitando esta grande rocha que vaga pelo infinito. Assim como os dinossauros ou a própria Terra, também vamos todos morrer. Com um caldo existencialista, Malick teve a força de fazer um religare. 

Por ter sido realizado com um cuidado visual extra e dar mais espaço para as ações dos membros da família texana do que para diálogos, o filme possui uma carga simbólica aberta a interpretações. Uma delas é a relação mãe e filho, e não consegui evitar a associação com o complexo de Édipo (o desejo de morte do pai e a atração pela mãe).

Antes de ir ao cinema, já tinha lido que o filme segue a “lentidão” de “Além da linha vermelha” e por isso fui preparado pra relaxar na poltrona e aproveitar a qualidade de som e da imagem que a sala de cinema proporciona para tentar extrair o que de mais artístico o filme tem. E tem bastante. Já suspeitava que o roteiro não teria novidades ou grandes atrativos, mas se funde ao visual e serve para algo maior, como havia dito anteriormente. Imagino que por desconhecerem o estilo de Terrence Malick ou terem se deixado levar pelos nomes Brad Pitt e Sean Penn no poster, vi muita gente saindo no meio da sessão e uma mulher até xingou o filme quando as luzes acenderam. Vendo que quase todo mundo odiou o filme, me considerei sortudo por ter gostado dessa experiência visual-auditiva e do recado memento mori que ela trouxe.
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