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Posts Tagged ‘Quadrinhos’

MAR080233-640x1024 Já conhecia o inglês fanfarrão por meio das publicações caóticas  que meu irmão acompanhava aqui no Brasil. Li algumas histórias dessa primeira etapa mesmo, do run do Jamie Delano, e outras do próximo run, escrito por Garth Ennis (Preacher, Hitman). Mas só agora, com Hellblazer Origens pude mergulhar neste universo, conhecer e ficar viciado mesmo no personagem. E só agora entendi de fato aquele selo clássico suggested for mature readers. Não é só sexo e muita violência, são nuances que somente adultos compreendem. Hellblazer se trata da vida e das desaventuras de John Constantine, um inglês da classe operária cuja vida é cheia de podres, de mistério e de magia. Mas, por favor, se você espera que esta série do Delano tenha alguma coisa a ver com aquele filme mediano estrelado pelo Keanu Reeves, já saiba que é bem o contrário. O filme faz uma injustiça danada com os quadrinhos de Constantine e a magia daqui é algo muito mais sombrio, pertencente mais ao gênero do terror do que da fantasia. Dito isso, dá pra saber que John Constantine cativa quem gosta de magia e de quem não fecha os olhos para as coisas feias do mundo.  A série é bem longa mas já foi concluída nos EUA, teve 300 números e mais de 8 escritores encaminhando a história. A série Hellblazer Origens, da Panini, contempla as primeiras 40 edições, a etapa completa de Jamie Delano, e terá uns 7 encadernados, estando atualmente no volume 5.

Feita essa brevíssima apresentação, vamos aos comentários. A história conduzida por Jamie Delano mostra um mundo sombrio, de desesperança, de desgraças políticas, familiares e sociais. O primeiro encadernado, Pecados Originais, nos joga em Londres, no fim da década de 80 com um grande demônio da fome a solta, a presença da juventude hooligan e preconceituosa, demônios que especulam almas no mercado financeiro e uma luta metafísica entre o Exército da Danação e os Cruzados da Ressurreição. Nas primeiras duas histórias deste encadernado, sobre o Mnemoth o demônio da fome, John viaja para os EUA e para a África em busca de saber como parar este grande ser que faz com que as pessoas consumam tudo do que elas mais desejam de forma desenfreada, seja carne ou jóias. Nesta primeira história, já aparece a fórmula central que é John Constantine: o cara é inteligente, sagaz, um malandro bem vestido que conhece as pessoas certas e que leva seus amigos pro buraco. Enquanto ele arquiteta tudo e os outros pagam o pato, ele sai quase ileso. Quase. Ao longo da série, essa atitude vai sedimentando a culpa e a loucura em Constantine, formando traços fortes em sua subjetividade.

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E é assim que Constantine é. Inspirado em Sting, do The Police, o mago se vira com sua esperteza, seu charme e seus cigarros. Trabalhando sozinho, usando pessoas para seus objetivos ou sendo a cabeça de outros músculos, Constantine não defende nem o céu e nem o inferno. Como os dois lados são quase a mesma coisa, forças metafísicas que oprimem a humanidade em prol dos próprios interesses, não há uma grande simetria entre bem e mal. Constantine quer somente se virar, usando magia de uma forma terrena. Aliás, muito pouco se fala de aspectos ligados ao catolicismo durante o run de Delano, fora o enredo já batido da volta de um messias à Terra e um embate entre os crentes e o inferno. O enfoque é maior para coisas como paganismo, geomancia, linhas de ley e magias arcanas.

Voltando ao Constantine, o filho da puta cresce em você. É difícil não simpatizar com o personagem e deixar de viver o seu sofrimento. Não importa se ele acaba traindo algum amigo ou se ele acaba fazendo besteira, a gente gosta desse cuzão. Ele é legal demais para ser odiado. Aquela história em que ele está deprimido em Gotham e acaba percebendo que completou 35 anos de vida é memorável. Um roteirista e um personagem e tanto.

Hellblazer-07-BR_P gina_19_Imagem_0001Sobre a escrita de Delano, é algo de respeito. De vez em quando ele dá uma escorregada em uma ou outra história mediana, mas em geral o roteiro de Hellblazer é muito bom. Cheio de quadros narrativos, Delano insere poesia e ilustra um mundo mágico e perverso com palavras. De início, pode ser meio pesado e parecer “encheção de linguiça”, mas dá aos quadrinhos de Constantine um verdadeiro toque literário refinado. Entre os temas recorrente nas histórias de Delano, fora a magia, é claro, há crítica ao conservadorismo social e político, há ecologia, cultura hippie, guerra das malvinas, há questões sobre as forças femininas e masculinas, ligadas a assuntos como machismo, família e casamento. Delano também faz bastante referência a livros, arte e filmes, como a banda Velvet Underground, Bogart e O Senhor das Moscas. Enfim, é um texto maduro, competente e inteligente. Tem muitas história legais; uma ou outra são divertidas, mas a maioria é puxada para o gênero terror/suspense, sendo sombrias e  às vezes bastante complexas, como o imenso A Máquina do Medo.

Sei lá o que realmente queria escrever aqui sobre a série Hellblazer Origens, só espero que mais gente conheça essa ótima história em quadrinhos e parem de ficar tanto nas adaptações hollywoodianas. A editora Panini está fazendo um bom trabalho, os preços estão legais pro bolso, então está valendo a pena investir nesta série. Fui comprando devagar, começando pelo vol. 3 e 4, A Máquina do Medo Ato I e Ato II, e aí pegando o resto quando o orçamento mensal deixava, e agora virou uma coleção legal que gosto de tê-la.

Não sei como estão as últimas temporadas de Supernatural, assisti somente até a quinta temporada e achava muito boa, era coisa foda mesmo. Ao meu ver os fãs de Supernatural precisam conhecer Hellblazer, seja fase do Delano ou do Garth Ennis, assim como os outros trabalhos da Vertigo, como o Sandman do Neil Gaiman. Tem bastante coisa na internet comparando Supernatural com obras do Gaiman ou com aspectos do mundo de John Constantine, e quando assistia, dava para identificar certas influências. Não é a toa, visto que o criador da série de TV, Eric Kripke, é um grande fã de John Constantine e até usou o visual do mago para criar o anjo Castiel. Então, acho que Hellblazer tem muita gente a cativar ainda.DSCN4248Hellblazer Origens

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VERSÃO ATUALIZADA DESTE POST NO NOVO BLOG! (http://novoresenharexperientia.wordpress.com/2014/06/17/retalhos-a-autobiografia-de-craig-thompson-em-quadrinhos/)

 

Retalhos (Blankets, no original) de Craig Thompson é uma história em quadrinhos sobre a infância e adolescência do próprio autor, mostrando um vida difícil em Wisconsin, no centro dos Estados Unidos. Além de em casa ser atormentado por seu pai rígido e sua mãe religiosa demais, na escola Craig apanha e é descriminado por ser diferente dos caras atletas de mullets. A  relação difícil com a religião e com seu próprio eu marca toda a história, em 592 páginas. As lembranças do autor também cobrem a relação ambígua com seu irmão mais novo, Phil, que ao mesmo tempo não o deixava dormir enquanto os dois tinham que dividir a mesma cama, mas foi um parceiro nas horas de brincar.

Apesar do começo deprimente, onde Craig é isolado e reprimido pela família, escola e pela igreja local, Retalhos é um conto sensível sobre seu primeiro amor, Raina, e sobre achar seu caminho para a vida adulta. Na adolescência, Craig conhece a garota em um acampamento religioso, junto com outros dois excluídos, um punk e um hippie.  Começam a ficar  juntos, fogem para a floresta e matam as missas. Há uma intensa troca de olhares entre os dois.

Depois do acampamento, Craig e Raina trocam correspondências. Escrevem cartas, mandam flores e ele envia alguns desenhos para ela. São flertes a distancia. Após um tempo, Craig recebe um telefonema dela. Raina passa por um duro momento, pois seus pais vão se separar, e ela sente-se muito sozinha. Por isso, convida Craig para passar 2 semanas para ficar na casa dela. Para convencer a mãe, Craig enfatiza que a família dela é cristã e que não vai dormir no mesmo quarto que ela, já que os pais delas estarão lá também. Já para receber o aval do pai, Craig precisa voltar a assistir todas as aulas, pois ele matava muitas, tirar notas boas e abandonar seu vegetarianismo e comer carne. Realizando as duas primeiras mas trapaçando na última promessa, o rapaz consegue ir ver a garota.

Como os filmes 500 days of Summer ou Annie Hall, Retalhos também é um conto bonito sobre um amor passageiro. A escrita e desenhos sensíveis, sem ser piegas, dão um toque sensual mas também melancólico para os momentos entre Craig e Raina. Os dois são ao mesmo tempo profundamente íntimos, mas distantes. “Tudo degenera”, explica Raina enquanto os dois voltam de uma festa.

A religião permeia a relação entre os dois, assim como as dúvidas de Craig. Em um momento, ele agradece a Deus por poder dormir junto com uma criatura tão perfeito, mas se pergunta se não era pra ele se sentir culpado. Também não fica a vontade com seu próprio corpo e se sente sujo por um tempo por desejar sexualmente Raina.

O título da história refere-se a uma colcha de retalhos que Raina fez e deu de presente para Craig durante sua visita. Ele se impressiona com o tempo dedicado e é o maior símbolo do afeto entre os dois. A única coisa que Craig não consegue deixar para trás é essa colcha.

O amor entre os dois passados em duas semanas esfria quando Craig volta para casa. Em um telefonema, ela explica que não pode se comprometer com mais uma responsabilidade, o namoro, mas que quer manter a amizade. Os dois matem contanto por certo tempo, mas Craig decide esquece-la e diz adeus.

“Como é bom deixar marcas na superfície branca. Fazer um mapa dos meus passos. Mesmo que seja temporário”, é a ultima narração das páginas finais, podendo ser uma metáfora para sua curta relação com Raina.

Mas não se engane. Como escrevi antes, Retalhos não é só romance. É uma narrativa complexa sobre crescer, questionar a religião, o papel da fé para cada pessoa, a responsabilidade de ser o irmão mais velho e sobre deixar seu passado e seguir a vida.

Não pretendia escrever algo muito grande, sei que ficou vago, mas o intuito era indicar essa boa história em quadrinhos.

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