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Posts Tagged ‘Resenha’

sherlock-_-a-study-in-scarletAlém de ter lido “The dharma bums” nestas férias, li também “Um estudo em vermelho” de Arthur Conan Doyle, o primeiro caso de Sherlock Holmes. Só conhecia este famoso personagem de ouvidos e com as duas adaptações cinematográficas de Guy Ritchie, Robert Downey Junior e Jude Law. Alias, preferi ignorar a caracterização que Conan Doyle faz de seus personagens para ficar com Downey Jr e Jude Law como Holmes e Watson, respectivamente. É mais divertido ficar imaginando eles durante a leitura do livro.

A obra original de Conan Doyle sobre Holmes é vasta, totalizando em 4 romances e 56 contos. Após “Um estudo em vermelho” seguem-se “O signo dos quatro”, “O cão dos Baskervilles” e “O vale do terror”. Os contos estão reunidos em diversos livros, como “As aventuras de Sherlock Holmes” e “O último adeus de Sherlock Holmes”. Este primeiro romance do cânone apresenta um caso de aparente homicídio, em que a vítima não apresenta cortes ou ferimentos, sendo encontrada esticada no chão de um cômodo vazio junto com a palavra RACHE na parece, escrita com sangue, e uma aliança junto ao corpo. Tudo desenvolve-se a partir daí, levando a trama até Salt Lake City, nos EUA, e envolvendo a comunidade mórmon. Nunca tive medo dos mórmons, até ler este livro.

Acredito que esse livro é bom para quase todo mundo, desde aqueles que estão iniciando agora e não sabem com qual bom título começar, para os mais relaxados, para os mais “cultos”, para os amantes do gênero e para quem nunca tinha lido um livro policial. Leio muito pouco deste gênero, e não sei por quê, mas tinha a impressão que a linguagem iria ser mais travada por uma estrutura antiga e por joguinhos bestas de “quem matou quem”, “quem será o culpado”, etc. Mas não. A narração do doutor Watson não se apega aos extremos detalhes do crime (somente na conclusão) e não há uma atmosfera artificial e forçada para criar suspense. O livro tem uma narrativa bastante rápida, com ganchos ao fim de cada capítulo e linguagem fácil.

Doyle é bastante competente e toda a fama de Sherlock Holmes não é a toa, o livro é realmente bom e muito inteligente. Vale a pena por mostrar como Sherlock Holmes e o doutor Watson se conheceram em Londres, pela descrição das habilidades e vícios dos dois companheiros e pelo fascínio que o temperamento e a inteligência do detetive exerce em Watson e, consequentemente, em nós leitores.

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dharma bums
A geração beat, formada principalmente por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William S. Burroughs, Neal Cassady e Gary Snyder, foi um grupo de escritores norte-americanos desencantados com a América do pós-segunda guerra mundial. O grupo teve maior fama nos anos 50, sendo que a vida e obra de seus membros foram permeadas pela negação aos conceitos instituídos na sociedade, pelo uso de drogas, por um modo novo de se fazer escrita e de viver, pegando a estrada ou a trilha, praticando a sexualidade por vias alternativas, adotando religiões orientais e tendo uma postura antimaterialista perante a vida. Muitos consideram os autores beatniks como precursores do movimento hippie, e o livro The dharma bums de Jack Kerouac sustenta muito bem esta afirmação.
The dharma bums, trazido aqui no Brasil como Os vagabundos iluminados, foi publicado em 1958 e baseia-se no período em que Kerouac (Ray Smith, no livro) estava interessado pelo budismo e pelo montanhismo, atividades introduzidas por seu amigo Gary Snyder (Japhy Ryder, no livro). Não há muito que contar como sinopse deste livro: Ray Smith está buscando se aperfeiçoar em seu budismo e ao conhecer Japhy, os dois passam a ser bons amigos e compartilham sonhos e festanças, vivendo de maneira simples aproveitando as estradas e a natureza oferecem. Passado principalmente em São Francisco e redondezas da Califórnia, o livro é embalado por viagens de carona, caminhadas, subidas em montanhas e invasão de trens cargueiros, uma vez que os personagens do livro não se apegam a moradias fixas, vivem com pouco dinheiro e valorizam muito a experiência direta com o mundo. O termo beat também é entendido como beaten down (quebrado ou cansado), fazendo referência ao modo simples e barato de viver de Kerouac, assim como o ideal de budismo que o personagem/autor busca, uma espiritualidade calma desapegada das coisas materiais. Além das viagens e montanhismo praticado com Japhy, há cenas de yab-yum, uma prática sexual presente em algumas religiões orientais, de bebedeiras, de festas gigantescas, de solidão e de contemplação.
Em uma certa parte do livro, enquanto Japhy e Ray estão em uma roda de amigos conversando, Japhy descreve uma imagem que é a essência de The dharma bums: um andarilho esfarrapado e cansado, carregando uma mochila nas costas, anda por uma rua de um subúrbio americano, onde há a mesma luz azulada saindo das janelas de todas as salas de televisão. O viajante atravessa a rua e é o único que não é escravo das telas, pois pode pensar diferente enquanto dentro daquelas casinhas, todos pensam exatamente a mesma coisa. Esta imagem capta bem o que aparece no livro como “revolução da mochila” ou rucksack revolution, o desejo de Japhy que toda a juventude deveria largar seu conforto e suas mentes pequenas, pegar uma mochila e percorrer as estradas e a natureza do continente. O que os vagabundos de dharma colocam em cheque é o sistema produzir-consumir-produzir-consumir que esgota e tira a vitalidade das pessoas, concepção resgatada pelos hippies posteriormente.
Um livro bastante inspirador, onde Kerouac relata de um modo lírico e objetivo suas viagens, seus momentos de festa e poesia e as andanças em busca da iluminação. Não sei dizer se os princípios budistas apresentados no livro são fieis aos ensinamentos do budismo original ou de alguma corrente variante deste, mas já li que o budismo aprendido por Kerouac e por muitos outros ocidentais sofreu deturpações e reinterpretações do budismo oriental, o que ocorre frequentemente com quase todas religiões, ideologias e filosofias. Em fim, achei mais interessante o que Kerouac tem a dizer sobre seus amigos e suas vivencias do que sua busca espiritual. Um livro menor, as vezes obscurecido por On the road, o clássico de Kerouac, mas ainda tem o mesmo potencial de abalar nossa rotina e implantar o desejo de sair por aí, se enfiando no mundo e buscando um jeito de viver mais livre, mais louco e mais autêntico. A maneira de Kerouac contar a história nos provoca uma nostalgia de uma não-experiência, um tempo não vivido por nossa geração, onde as estradas eram menos perigosas e repletas de esperanças. Mesmo assim, com as ruas de hoje mais assustadoras e apocalípticas, Kerouac nos dá um sopro de vida.

“Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte “lunática” de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana do México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso (…)”

Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os mais novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana.  (Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac)

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MAR080233-640x1024 Já conhecia o inglês fanfarrão por meio das publicações caóticas  que meu irmão acompanhava aqui no Brasil. Li algumas histórias dessa primeira etapa mesmo, do run do Jamie Delano, e outras do próximo run, escrito por Garth Ennis (Preacher, Hitman). Mas só agora, com Hellblazer Origens pude mergulhar neste universo, conhecer e ficar viciado mesmo no personagem. E só agora entendi de fato aquele selo clássico suggested for mature readers. Não é só sexo e muita violência, são nuances que somente adultos compreendem. Hellblazer se trata da vida e das desaventuras de John Constantine, um inglês da classe operária cuja vida é cheia de podres, de mistério e de magia. Mas, por favor, se você espera que esta série do Delano tenha alguma coisa a ver com aquele filme mediano estrelado pelo Keanu Reeves, já saiba que é bem o contrário. O filme faz uma injustiça danada com os quadrinhos de Constantine e a magia daqui é algo muito mais sombrio, pertencente mais ao gênero do terror do que da fantasia. Dito isso, dá pra saber que John Constantine cativa quem gosta de magia e de quem não fecha os olhos para as coisas feias do mundo.  A série é bem longa mas já foi concluída nos EUA, teve 300 números e mais de 8 escritores encaminhando a história. A série Hellblazer Origens, da Panini, contempla as primeiras 40 edições, a etapa completa de Jamie Delano, e terá uns 7 encadernados, estando atualmente no volume 5.

Feita essa brevíssima apresentação, vamos aos comentários. A história conduzida por Jamie Delano mostra um mundo sombrio, de desesperança, de desgraças políticas, familiares e sociais. O primeiro encadernado, Pecados Originais, nos joga em Londres, no fim da década de 80 com um grande demônio da fome a solta, a presença da juventude hooligan e preconceituosa, demônios que especulam almas no mercado financeiro e uma luta metafísica entre o Exército da Danação e os Cruzados da Ressurreição. Nas primeiras duas histórias deste encadernado, sobre o Mnemoth o demônio da fome, John viaja para os EUA e para a África em busca de saber como parar este grande ser que faz com que as pessoas consumam tudo do que elas mais desejam de forma desenfreada, seja carne ou jóias. Nesta primeira história, já aparece a fórmula central que é John Constantine: o cara é inteligente, sagaz, um malandro bem vestido que conhece as pessoas certas e que leva seus amigos pro buraco. Enquanto ele arquiteta tudo e os outros pagam o pato, ele sai quase ileso. Quase. Ao longo da série, essa atitude vai sedimentando a culpa e a loucura em Constantine, formando traços fortes em sua subjetividade.

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E é assim que Constantine é. Inspirado em Sting, do The Police, o mago se vira com sua esperteza, seu charme e seus cigarros. Trabalhando sozinho, usando pessoas para seus objetivos ou sendo a cabeça de outros músculos, Constantine não defende nem o céu e nem o inferno. Como os dois lados são quase a mesma coisa, forças metafísicas que oprimem a humanidade em prol dos próprios interesses, não há uma grande simetria entre bem e mal. Constantine quer somente se virar, usando magia de uma forma terrena. Aliás, muito pouco se fala de aspectos ligados ao catolicismo durante o run de Delano, fora o enredo já batido da volta de um messias à Terra e um embate entre os crentes e o inferno. O enfoque é maior para coisas como paganismo, geomancia, linhas de ley e magias arcanas.

Voltando ao Constantine, o filho da puta cresce em você. É difícil não simpatizar com o personagem e deixar de viver o seu sofrimento. Não importa se ele acaba traindo algum amigo ou se ele acaba fazendo besteira, a gente gosta desse cuzão. Ele é legal demais para ser odiado. Aquela história em que ele está deprimido em Gotham e acaba percebendo que completou 35 anos de vida é memorável. Um roteirista e um personagem e tanto.

Hellblazer-07-BR_P gina_19_Imagem_0001Sobre a escrita de Delano, é algo de respeito. De vez em quando ele dá uma escorregada em uma ou outra história mediana, mas em geral o roteiro de Hellblazer é muito bom. Cheio de quadros narrativos, Delano insere poesia e ilustra um mundo mágico e perverso com palavras. De início, pode ser meio pesado e parecer “encheção de linguiça”, mas dá aos quadrinhos de Constantine um verdadeiro toque literário refinado. Entre os temas recorrente nas histórias de Delano, fora a magia, é claro, há crítica ao conservadorismo social e político, há ecologia, cultura hippie, guerra das malvinas, há questões sobre as forças femininas e masculinas, ligadas a assuntos como machismo, família e casamento. Delano também faz bastante referência a livros, arte e filmes, como a banda Velvet Underground, Bogart e O Senhor das Moscas. Enfim, é um texto maduro, competente e inteligente. Tem muitas história legais; uma ou outra são divertidas, mas a maioria é puxada para o gênero terror/suspense, sendo sombrias e  às vezes bastante complexas, como o imenso A Máquina do Medo.

Sei lá o que realmente queria escrever aqui sobre a série Hellblazer Origens, só espero que mais gente conheça essa ótima história em quadrinhos e parem de ficar tanto nas adaptações hollywoodianas. A editora Panini está fazendo um bom trabalho, os preços estão legais pro bolso, então está valendo a pena investir nesta série. Fui comprando devagar, começando pelo vol. 3 e 4, A Máquina do Medo Ato I e Ato II, e aí pegando o resto quando o orçamento mensal deixava, e agora virou uma coleção legal que gosto de tê-la.

Não sei como estão as últimas temporadas de Supernatural, assisti somente até a quinta temporada e achava muito boa, era coisa foda mesmo. Ao meu ver os fãs de Supernatural precisam conhecer Hellblazer, seja fase do Delano ou do Garth Ennis, assim como os outros trabalhos da Vertigo, como o Sandman do Neil Gaiman. Tem bastante coisa na internet comparando Supernatural com obras do Gaiman ou com aspectos do mundo de John Constantine, e quando assistia, dava para identificar certas influências. Não é a toa, visto que o criador da série de TV, Eric Kripke, é um grande fã de John Constantine e até usou o visual do mago para criar o anjo Castiel. Então, acho que Hellblazer tem muita gente a cativar ainda.DSCN4248Hellblazer Origens

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– Preferia não fazê-lo? – repeti, como um eco, levantando-me muito nervoso e atravessando a sala em grandes passadas.

– O que está querendo dizer com isso? Por acaso ficou louco? Quero que me ajude a conferir esta página. Tome aqui.

Estendi-lhe o documento. Mas Bartleby insistiu:

– Preferia não fazê-lo.

É este o espírito do consagrado conto de Herman Melville publicado pela primeira vez em 1853. É um livro bem curto, de umas 70 páginas, bem legal de se ler. E só para avisar, não vou soltar spoilers nesse post.

“Bartleby, o escrituário” (Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall Street) retrata os estranhos hábitos do jovem escriturário do título. Ficamos sabendo sobre Bartleby através do narrador da história, um advogado experiente de Nova York que contrata Bartleby para trabalhar junto com outros dois escreventes Nippers e Turkey e o office boy Ginger Nut. Nippers é um cara estourado e Turkey costuma encher a cara, mas os dois se compensam pois à tarde Nippers é mais calmo e Turkey está sempre sóbrio pelas manhãs.

No começo, Bartleby faz suas obrigações, produzindo cópias de documentos de alta qualidade, mas logo em seguida prefere não fazer mais nada. Todos no escritório ficam malucos, como é mostrado no trecho acima, o que faz com que o narrador busque conhecer melhor seu novo empregado, seu passado e qual a causa para esse comportamento tão bizarro. Ele tenta de tudo para compreender melhor quem Bartleby é, mas tudo o que consegue ao fazer qualquer tipo de pergunta é: “preferia não fazê-lo”. O narrador começa a ter um sentimento complexo em relação ao jovem escrivão, uma mistura de raiva por ele se recusar a tudo sem motivo aparente, intimidação pela sua calma e misteriosidade  e compaixão por ser um rapaz solitário, pálido e calmo.

Alguns dias se passam e o narrador descobre em um domingo antes de ir à igreja, quando a Wall Street está totalmente deserta, que Bartleby está morando no escritório. Isso incomoda o velho advogado de um jeito inexplicável, o que irá aumentar o mistério da trama, e também a tensão entre os dois.

O conto de Melville é amplamente conhecido e influente hoje em dia, apesar de não ter sido reconhecido na época. Já vi muitos artigos acadêmicos relacionando a trama de Bartleby com assuntos de psicologia, existencialismo e filosofia. Em um congresso sobre fenomenologia e existencialismo, lembro de uma palestrante utilizar o conto para ilustrar sua fala sobre o vazio existencial e o fechamento do horizonte do ser. E, após ler o livro, parece realmente ser uma história sobre claustrofobia, alienação e total solidão. O modo como o escritório é descrito, com poucas janelas, sendo que haviam muros altos bastante próximos que bloqueavam o sol, já serve como indicador do confinamento sofrido pelos personagens. É comum achar na internet análises dizendo que Bartleby é uma pessoa totalmente alienada de humanidade e de propósitos, como se recusa-se a fazer parte da sociedade. Como o grande Jorge Luis Borges aponta na introdução da edição que possuo do livro, “Bartleby, o escrituário” é um precursor do estilo de Franz Kafka, compartilhando o senso de absurdo, de mistério, de algo deste nosso mundo que dá vontade de gritar e que nos perturba. Isso é verdade, pois o peso da burocracia, a maquinização do homem e a falta de sentido nas atividades humanas podem ser encontrados no conto de Melville.

Ao acabar de ler o livro, não sabia direito o que pensar. Com certeza eu gostei, mas a digestão não é facil. O personagem é tão bizarro que a gente fica matutando sobre ele por bastante tempo; você pode não compreender direito as coisas mas mesmo assim a história te pega. Enfim, achei um livro muito interessante e misterioso, é um clássico que sempre tive curiosidade de ler, sem falar no estilo narrativo bastante prazeroso do autor. Me deu vontade de conhecer o épico sobre baleia, Moby Dick.

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An Alien Heat

An alien heat é engraçado, muito bem escrito e aparentemente desconhecido. Pouco se acha sobre ele em páginas brasileiras e até mesmo em inglês. Após me satisfazer muito com a leitura e ver que não há muitas resenhas ou comentários disponíveis na internet sobre essa obra de Moorcock, resolvi voltar a escrever para o blog.

Achei esse livro na seção de literatura em língua inglesa em um sebo da minha cidade. Capa dura verde, velho e meio desgastado, custando 5 reais. O fato de Michael Moorcock ser uma influência para Alan Moore foi definitivo para eu me interessar pelo livro de capa dura verde e, por sorte, eu já estava levando mais dois livros e sabia que a mulher do sebo iria me dar um desconto. No fim, o livro saiu de graça. Ele ficou parado na minha estante por uns 7 meses, até que um dia eu resolvi dar uma olhada e,  quando percebi, já estava no capítulo dois.

Comecemos com os dados básicos: An alien heat é o primeiro livro da trilogia The dancers at the end of time, do já mencionado escritor inglês Michael Moorcock. O pano de fundo da trilogia é a morte inexorável do universo que conhecemos, assim como a vida decadente, livre e bizarra dos humanos em um futuro longínquo. Nesse estágio da humanidade, o conhecimento e tecnologia chegaram ao ponto de deixar a morte e o nascimento para o passado, sendo o protagonista da trama, Jherek Carnelian, o ultimo homem nascido. Os habitantes do fim dos tempos vivem como semi-deuses, controlando a cor do céu e do oceano, criando banquetes, festas e cidades inteiras do nada, fazendo de tudo para afastar o tédio da vida eterna. É curioso (e não deixa de ser uma crítica sutil) o fato de eles utilizarem todo o conhecimento tecnológico para mudar a materialidade, mas sem ter uma clara noção de como tal tecnologia funcionam: só querem se divertir. Pode-se trocar de sexo à vontade e espontaneamente, e até mesmo virar um gorila se você quiser. Pessoas do passado (como muitos de nós) iriam ver a sociedade do futuro como imoral, já que Jherek faz sexo com a própria mãe no primeiro capítulo, faz sexo com seu amigo e há também uma prostituta chamada Everlasting Concubine que adora transar com todos.

Mas isso tudo fica de background e introdução para o que realmente acontece em An alien heat. Além de ser uma ficção científica diferente das fc de robôs, espaços e aliens, The dancers at the end of time é sobretudo uma história de amor. E sobre viagem no tempo. Como Moorcock diz no prólogo do primeiro livro, “o que segue é a história de Jherek Carnelian, que não sabia o significado da moralidade, e Mrs Amelia Underwood, que sabia tudo sobre isso”. Como é de nossa condição buscar sempre algo para fazer, Jherek, além de ser fissurado por artefatos e história da Inglaterra do século XIX, decide investigar o sentido da palavra “virtude”. Isso é compreensível, uma vez que no futuro palavras abstratas de cunho moral ou de boa conduta, como virtude, perderam completamente seu sentido. E a importância no livro de Amelia Underwood, uma moça abduzida coincidentemente do século XIX e mandada para o fim dos tempos, é precisamente mostrar o enorme choque de cultura causado por milênios de anos. Jherek, encantado com a beleza da moça e por se tratar de uma habitante da Inglaterra vitoriana, decide apaixonar-se por ela. A partir de então, muita coisa acontece com Jehrek Carnelian ao tentar conquistar o amor de sua adorada. Em um determinado momento, os dois voltam para o século XIX e para a sorte do leitor, muita merda acontece.  Jherek fica totalmente deslocado, tentando compreender como as pessoas do passado se comportam, sem saber absolutamente nada sobre valores e hábitos comuns para nós.

Esse é o enredo principal de An alien heat. Não seria bom o suficiente para a história se sustentar se não fosse a ótima escrita e o humor refinado do autor inglês. Em meio a uma linguagem envolvente e culta, dando agilidade ao romance, há tiradas sobre moralidade, sobre nossa condição humana e é claro, sobre o amor. É muito interessante ver os costumes e a moral a partir da experiência de Jeherk. No começo, achei a situação dos habitantes do fim dos tempos um tanto estranha demais, o que causou um distanciamento entre eu e os personagens, mas logo a leitura ficou muito melhor e Jehrek e seus amigos tornaram-se muito simpáticos. É isso que marca o livro, a simpatia e um divertimento lighthearted (uma história que deixa seu “coração leve”, deixa você alegre).

Uma coisa que chamou minha atenção em uma resenha que li sobre a trilogia é que The dancers at the end of time, além de ser uma história de amor, pode ser vista como uma história sobre deixar de pertencer ao seu lugar de origem, não pertencer à uma época ou à uma sociedade. Aliás, o título do primeiro livro pode ser traduzido como “um calor estrangeiro”, mostrando como a paixão está ausente, no caso do livro, em uma sociedade futura.

Sei que se eu quiser passar um tempo quieto, relaxar e dar umas risadas, irei reler esse livro enquanto não possuir os outros dois, The hollow lands e The end of all songs.

Michael Moorcock à esquerda e à direita Alan Moore, o mago barbudo muito foda dos quadrinhos.

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O animê japonês Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988), dirigido por Isao Takahata, é um drama anti-guerra indispensável para qualquer pessoa. É uma mistura perfeita de filme pacifista com drama que satisfez minha vontade de ver um filme de guerra.

Hotaru no Haka concentra-se na história de dois irmãos, Seita e Setsuko, que lutam para sobreviver durante a Segunda Guerra Mundial. O pai luta no mar defendendo o Japão, enquanto um ataque aéreo dos Aliados utilizando bombas incendiárias carboniza a mãe das duas crianças. Após o choque da realidade, Seita decide esconder a morte da mãe para sua irmã mais nova e a partir de então, torna-se um irmão-pai. Os irmãos tem a sorte de poderem morar com uma tia, mas com o avanço da guerra e a destruição cada vez maior das fábricas japonesas, a tia fica cada vez mais dura com eles e eventualmente os expulsa de casa. Durante esses período duro demais, os irmãos sobrevivem de saques ou trocando coisas, como os quimonos da mãe, por comida.

Depois de saírem da casa da tia, os irmãos encontram um abrigo contra bombas no mato e passam a morar lá. Mas as coisas desandam muito mais quando a comida começa a faltar e Setsuko fica gravemente doente. Sem revelar mais do filme, recomendo fortemente que descubram a metade final.

Focando-se no cotidiano e nas dificuldades da vida dos dois irmãos, Túmulo dos Vagalumes é um triste retrato da morte dos inocentes que a guerra provoca. Esse olhar micro do conflito bélico mostra a tamanha desgraça que as pessoas passam, a realidade que se transforma em estatísticas e é tida como inevitável e até esperada numa guerra. Lembrando que o filme só abarca a história de duas crianças em uma cidade japonesa. Imagina se pensarmos em todas as pessoas, de todos os cantos do mundo que morreram durante essa mesma guerra. Acredito ser bem este o ponto forte do filme: contar uma história simples, de somente dois inocentes japoneses, que me comoveu mais do que uma história clichê do Holocausto.

Além da tristeza que o filme carrega, há lugar para observarmos o forte vínculo entre os dois irmãos. É confortante e comovente ver a dedicação de Seita parar cuidar de sua irmãzinha. Apesar de tudo, Seita faz tudo que pode para encher o estômago de Setsuko e também chega a leva-la para a praia.

Foi realizado um remake live action para TV japonesa para a data de 60 anos após o término da Segunda Guerra Mundial.

Sem exagerar ou forçar, sem nem mesmo tocar na questão das duas bombas atômicas detonadas no país, Hotaru no Haka comove até o mais duro coração.

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